domingo, 20 de maio de 2012

uva e manjericão                                                     .

Jack é um Jack Russell – ridiculamente óbvio, mas não tanto. Nasceu no carnaval, a caráter, jamais deixando o tapa-olho: um pirata; desceu a serra, subiu na vida – pode não ser verdade, mas vale bem o trocadilho – e agora diz-se que é praiero [quer mais o que-e-ê?]. Quem olha, não titubeia: um cachorro – parece, ousa-se dizer, um dálmata. Mas ele convenceu-se de outra coisa. Eu, há muito convicto de que o morar em apartamento não se compatibiliza com o viver canino – não adianta tentar –, preferi deixar estar: melhor não [me] contradizer; sequer tento disfarçar. Meus irmãos se renderam, meus pais adotaram – sabe-se o já preterido. E o Jack, cheirando a uva e manjericão, é todo mimos; perfeito bufão. Mudou tudo.

sábado, 5 de maio de 2012

certeza                                                         .

Aparentemente – descobri ontem –, sou a cara do Filipe. Que Filipe? O primo da namorada do filho de uma senhora que me é uma total desconhecida. Pois é.

Enquanto tomava um cappuccino e, em papeares ininterruptos, subvertia o que, fosse mais responsável, teria sido uma inteira tarde de estudos, notei estar sendo atentamente analisado pela mesa ao lado. Fingi não perceber – interesse nenhum em interagir –, mas confesso não ter ficado surpreso quando uma das também papeantes senhoras deixou sua cadeira e se dirigiu a mim.

“Com licença; desculpa. Você é o Filipe?” – sorri [posso ser muito simpático, quando não há o que dizer], mas não bastou a negativa: a presuntiva interlocutora 
revelou-se logo insistente. “Você tem certeza de que não é o Filipe?” – aumentei o sorriso, e arregalei os olhos. “Ele não é a cara do Filipe, Fulana?” – olhares constrangidos entre as mesas. “O Filipe já é casado.” – ah, tá. “Ele é primo da namorada do meu filho.” – íntimo, pelo visto. “Eu gosto muito dele.” – é para me convencer a ser o Filipe? “Não vejo o Filipe há anos” – estava ficando difícil manter a pose [depois de alguns segundos exibindo os dentes, as bochechas começam a doer]. “Olha, quer dizer que você não é o Filipe? Não estou acreditando!” – quem já não acreditava era eu. “Você está me enganando. Ele está me enganando, não está?” – comecei a olhar para os lados, como que a pedir ajuda; em vão. “Claro que está me enganando: você é o Filipe.” – a cabeça balançava em ritmo já acelerado. “É sim. Não é?! Ah...” – justamente, minha senhora: ah... “Se for uma brincadeira sua, vou pedir para sua mãe puxar o seu pé, quando você estiver dormindo.” – enquanto pensava no descabimento da ameaça, confesso, me dei conta de que, se minha mãe estivesse ali, sem dúvida já teria aderido à encenação, me afirmando um dissimulado Filipe. Sim, dissimulado, porque ele deveria ser mesmo muito pouco confiável, para fazer respingarem em meu cappuccino conjecturas assim tão presunçosas. Ou então... sim: a desconfiança poderia mais seguramente ser decorrente dessa senhora. Quem sabe não seria do estereotipado modelo de “dona” que os jovens evitam; de quem, logo avistando, passam longe? Bem possível – diria mesmo provável. Eu, pelo menos, se pudesse, passaria, naquele exato momento, para a outra extremidade do salão; sentaria à mesa mais distante do [impositivo] monologar interrogativo. “Gente! Que coisa... A ca-ra do Filipe!” – aham, senhora; senta lá! “Tô assustada.” – estávamos todos, àquela altura. “Que coisa.” – e ela enfim sentou.

Fiquei no café por ainda mais algum tempo. Pude ver a mesma senhora fazer voltar à cozinha o pedido de sua mesa, justificando-se à gerente: “olha, há algo de muito errado, em dizer que isso é um cappuccino. Somos [apontando para sua amiga, a Sra. Fulana] ambas viciadas em cappuccino.” – à gerente, resignada, só foi possível acatar a reclamação. “Estou acostumada a tomar cappuccino, entende? Sei quando está certo.” – mais certezas. “Falta o cremoso; é isso.” – o cremoso.

Da próxima vez, está já decidido, pedirei um expresso. Nada de cremoso em meu café – certeza.

sábado, 28 de abril de 2012

negar afirmações                                 .           

A muitos avanços importantes levanta-se – numa derradeira tentativa de esvaziamento - a obstinada acusação do não ser panacéia. Por mais que o calor do debate político-ideológico suponha o esfacelar de delimitações precisas, instigando a que muitas vozes passem longe do concreto em querela, o insistir-se nos quase sempre desajustes da retórica, longe de figurar como símbolo das benesses do discutir - em livres discursos -, impõe uma quase cegueira: contumaz resistência de se opor, não importando contra-sensos evidentes. Ignorar a uma série de atores políticos a legitimidade da [também política] eventual vitória de suas demandas - em tudo opostas a alegadas/acusadas abstrações - parece irresponsável descompromisso com o que de fato deveria estar em jogo. Há, entre o concordar integralmente com uma medida e o discordar inteiramente de seus efeitos e motivações mais genuínos, uma miríade de posicionamentos possíveis. Simplesmente contestar proposições direcionadas a mudanças reais subvertendo sua lógica; afirmando negações, é confundir e, pouco dissimuladamente, manter o exclusivismo do se conservar: afirmar-se em tudo o [já] equilíbrio; acusar-se a busca pelo extirpar do [dito ausente] desequilíbrio de sua própria inauguração. É como um insistir no recuar, consolidando – conscientemente ou não - a nefasta ilusão de harmonia, fantasiosa máscara de dissensões agudas. Deliberadamente confundir avanços e retrocessos faz mais que esvaziar o debate; inviabiliza-o. Um despropósito – não fossem todos em tudo intencionados: afirmação, negação, política. Trata-se, sempre, de um juízo - é razoável, portanto, não se fugir ao que deveria estar em questão. Que se avance, pois.


...
[Adendo do dia 10/05/2012:] Para entender a dimensão do debate - e de seus negacionismos -, bem vale a leitura deste artigo.

sábado, 21 de abril de 2012

Caracol                                                  .
Augusto Blanca


Quien se ponga a observar
En su lento caminar
A un caracol,
Podrá entonces descubrir
Que una estela luminosa
Va dejando tras su paso,
Para luego regresar
Por ese mismo lugar,
Para luego regresar.

El caracol no le teme
A la región que atraviese,
Ya que sabe que al final
Una meta encontrará;
Sólo le importa llegar,
Sólo le importa llegar,
Sólo le importa llegar.

Y quien se atreva
A interrumpir su paso,
Nada de él conseguirá,
Porque siempre el caracol
En estos casos
Se introduce en su coraza.
Y cuando el intruso cesa,
Vuelve a salir de su casa
Para entonces continuar;
Sólo le importa llegar.

Quien se ponga a caminar
A lo largo de un palmar,
Podrá ver en una de ellas
Que se mece un caracol
Como el gran conquistador,
Osado, en el penacho más alto,
Glorioso, victorioso.
Pero corta será su alegría,
Pero inútil será su camino,
Pero poco será su reinado,
Porque el viento le amenaza.

Y quien no sabe que al caer
De su trono el caracol,
Muere para abandonar su carroza
Debajo de cualquier hoja
Caída de cualquier árbol
En un otoño cualquiera.
Sólo le importó llegar
Y no supo regresar.
Sólo le importó llegar
Al caracol.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

descompasso .

Dois cinemas, um teatro, um complexo esportivo – com piscina olímpica, quadra poliesportiva, estádio de futebol… –, um aquário marinho, ônibus circulando pela cidade, 14 prédios em construção, inúmeros novos cursos e alunos. Quem acompanha as notícias sobre a Universidade Federal Fluminense (UFF), e não vivencia o quotidiano em seus diferentes campi deve considerar tratar-se de uma instituição das mais bem equipadas e modernas. A maioria de seus alunos, professores e funcionários, contudo, por mais que consiga manejar sua boa vontade de modo a abstrair inconvenientes manifestos em favor de uma visão mais ampla – de longa duração –, não pode evitar questionamentos. Afinal, enquanto o reitor anuncia as maravilhas da futura uffutópica, que não parece coincidir com as demandas da comunidade universitária, um sem número de indivíduos bastante reais vivencia salas de aula caquéticas, com cadeiras quebradas, ventiladores rangentes, quadros negros poeirentos; bibliotecas sem o menor controle sobre seus já escassos livros (e com ar condicionados que misteriosamente pifam no auge de todo verão); falta de professores; assistência estudantil quase nula; dificuldade de acesso a equipamentos…

Um exemplo próximo. O Programa de Pós Graduação em História (PPGH) da UFF é o único da Universidade com conceito 7 da CAPES – e, no âmbito da área da História, no país, um dos três com a conceituação mais alta da instituição avaliadora (são 3.329 os programas de pós-graduação, de todas as áreas, reconhecidos e recomendados pela CAPES; desse total, a apenas 117 foi concedido o conceito máximo). Seria de se imaginar que a Universidade, que se beneficia dos bons resultados de seus programas – uma vez que eles condicionam uma série de recursos –, faria um esforço para a manutenção do conceito do PPGH; que investiria em um centro de referência em seus quadros. Definitivamente não é essa a realidade; à relevância do Programa nos contextos nacional e internacional, não corresponde, de forma alguma, a infra-estrutura de que dispõe. Além das já mencionadas malfadadas salas, não há bons auditórios ou laboratórios bem equipados; faltam livros, ambientes adequados para estudo, para reuniões; são definitivamente insuficientes os computadores, os equipamentos de audiovisual, as impressoras…

Não se podem negar algumas melhorias na Universidade. As já visíveis – como a notória transformação do Restaurante Universitário, com a manutenção do acessível valor das refeições: R$0,70 – e as em andamento (com atrasos não menos notáveis, e certamente questionáveis). Mas a UFF, que não dispõe sequer de um espaço adequado para a cerimônia de colação de grau de turma de graduandos em História-Licenciatura/Bacharelado 2011/2 – um dos alegados motivos para o demorado processo da formatura –, incorporou a seu património o Cinema Icaraí (a despeito de já contar com uma grande sala de cinema, em um centro de artes fechado, há anos, para reformas), vai administrar o Complexo Esportivo Caio Martins e ainda propôs a construção de um aquário marinho.

Impossível olhar tão à frente, e não ver, a um palmo de distância, obstáculos mais concretos que promessas não negociadas. Estranho, estranho mesmo, é haver quem simplesmente comemore as pequenas notas nos jornais, convencendo-se, comovendo-se e contentando-se com a grandeza anunciada. Um flagrante descompasso.

domingo, 25 de março de 2012

razoabilidade .

Apesar do emprego, na escola em que estudei, de alguns métodos que se podem considerar inovadores, tive considerável dificuldade no processo de alfabetização. E o problema foi de tal dimensão, que me legou graves inconsistências ortográficas: L x U; P x B; T x D; F x V... Não era pouca a confusão que em minha cabeça se fazia. Lembro, por exemplo, que, no dia em que fui assinar o diploma da Classe de Alfabetização – pois é, tinha disso! –, cometi uma gafe que chocou a coordenadora: escrevi errado meu próprio sobrenome – tão simples; tão recorrente. Resultado: com a atenção (in)devida, pode-se notar uma espécie de correção-rasura, no tal documento - um verdadeiro atestado de minha dificuldade com as letras.

Não é de se espantar que, ainda que não desgostasse de livros – especialmente dos fartamente ilustrados -, eu odiasse ler e escrever. Diante do verdadeiro impasse, meus pais decidiram ser necessária uma atenção especial a esse quesito. Além de assíduo no consultório da tia Cacau - amiga da família e querida fonoaudióloga -, passei a desfrutar, em casa, de algumas sessões de produção de texto: minha mãe me deu um bonito caderno meia pauta e, com relativa freqüência, passou a me incentivar a, mesmo nas férias, recortar figuras e elaborar histórias, recheando e colorindo aquelas páginas. No fundo, no fundo, eu não levava essas tarefas assim tão a sério; não entendia muito bem para que serviam: não eram como os sempre chatos deveres de casa; eram algo no fundo divertido, agradável. Habituei-me.

Não sei quando se decidiu que o tal “reforço” havia sido suficiente. Também não poderia precisar quanto tempo durou essa fase. Posso afirmar, contudo, que ler e escrever acabaram por se tornar atividades de grande interesse pessoal. Deixaram de ser necessários estímulos dirigidos, da parte de meus pais ou de meus professores. Ao mesmo tempo – prova de estarem, conscientemente, incentivando-me -, não me faltaram livros ou cadernos; tinha-os, disponíveis, sempre: em casa e na escola.

Acabei me habituando a ler sempre - e muito. E o hábito, com o tempo, não pôde mais que se agravar. É assim compreensível que, além das leituras da Universidade, já abundantes, atenda constantemente, em paralelo, à demanda por textos outros, bastante variados, e não menos importantes: pego emprestado, compro, xeroco, empresto... sublinho, rabisco, copio, escrevo... É papel a não mais poder – e, por isso mesmo, abundam também clipes, pastas, caixas, prateleiras.

Responsáveis que são, em última instância, por ao menos uma parcela dessa espécie de compulsão que tenho por livros e materiais de papelaria, parece-me legitimamente cabível que a meus pais continue, por ainda um bom tempo, a ser atribuída também essa particular porção - considerável, claro está - de meus gastos. Afinal, convenhamos: eles, definitivamente, fizeram por merecer. E eu, sem dúvida, mereço continuar de seu incentivo desfrutando. Depois de tanto esforço, não há sequer o que discutir: é tudo muito razoável.

sábado, 24 de março de 2012

de panqueca e cicatriz - lembranças .

Panqueca. Foi o nome que dei a minha cabra. Ela era velha, gorda e tinha uma barbicha proeminente. Gabriel, meu irmão caçula, quando ainda era miúdo – e, confesso, muito chato –, passou por uma fase de intolerância a leite bovino. Resultado: sofremos todos, lá em casa, restrições alimentares. Para consolidar a mudança no cardápio diário, meu pai apareceu, certa tarde, com a mala do carro cheia: três cabras e um bode – um para cada filho.

Odeio leite caprino – e absolutamente todos os seus derivados. Na verdade, nenhum de nós jamais gostou da impositiva alteração à mesa. No entanto, diferentemente de meus irmãos, pouco afeitos aos seres que no fim das contas nos traziam momentâneo desgosto, passei considerável tempo cuidando dos bichos. Acordava, todos os dias, bem cedo; vestia-me como convinha – roupas velhas, botinas gastas; subia as escadas, com meu pai.

Como seria de se esperar, era o responsável pelas mais simples das tarefas. Quando nasceram os primeiros cabritos, a mim coube alimentá-los, com mamadeiras – poderia ser diferente? Havia outros afazeres: cuidava também dos pintinhos – mantendo-os aquecidos sob uma luz forte, ensinando-os, com o dedo, a ciscar... – e tirava, da vaca, leite espumantemente suficiente para fazer transbordar minha caneca, previamente munida de chocolate em pó. Durante essa fase, de uma particular maneira, fui mesmo um fazendeiro. Pelo menos era como, orgulhoso, eu me sentia – especialmente nos dias em que havia visitas.

Justamente nesse espírito, decidi, num domingo de churrasco, “cavalgar” um bode. Meu pai havia comprado uma charrete que nunca chegou a funcionar e, impacientemente resoluto, adiantei-me a improvisar um passeio às costas do animal. Depois de correr um bom tempo atrás do Don Juan – um bode grande, com enormes chifres retorcidos –, consegui, bastante desajeitadamente, montá-lo, em um pulo apressado. Foi, contudo, uma viagem rápida: após uns tantos saltos e sacolejos, fui imprensado contra uma cerca: caí, é claro, e levantei-me com todo brio imaginável – braço esquerdo cortado, já que a cerca, obviamente, era de arame farpado.

Tenho ainda a cicatriz. Junto com lembranças, de modo geral aprazíveis, é dos poucos traços que me restam dessa fase. Por mais que lá em casa ainda conservemos Anabela, a mais singelamente dengosa das vacas – com cujo leite minha mãe faz pães de queijo para o ano inteiro –, estou longe; mesmo muito distante de apreciar o quotidiano, romanceado ou não, no campo: desgosto do trabalho característico; não suporto acordar cedo; tolero por muito pouco tempo o odor acentuado dos bichos.

Há alguns anos, meu irmão mais velho foi a Jaurú, uma cidadezinha no interior do Mato Grosso, onde moram nossos avós, alguns tios e primos. Um dos meninos mais novos, conversando, perguntou, ao primo que acabava de conhecer, “Você pesca? Laça boi? Monta cavalo?”, diante do suceder de negativas, ele, surpreso, protestou “Mas o que você faz, então?!”. Exagero infantil; reduzido campo de possibilidades. Para sorte de meu irmão e de todos lá em casa, sempre foi-nos possível, a despeito de umas não tantas tarefas impositivas, escolher a partir de uma considerável variedade de atividades. Tendo podido optar, acumulei iniciativas: tentei, desisti ou insisti; troquei de hábitos um sem número de vezes, considerando, ainda que inconscientemente, transformações e incompatibilidades.

Poder mudar e aceitar mudanças é verdadeiro incentivo ao agradável coligir de lembranças e à posterior conciliação de momentos díspares. Se deixar de lado o ainda voluntário cuidado com os bichos não tivesse sido uma possibilidade; se tivesse sido obrigado à manutenção dessas tarefas quando já não tinha por elas interesse algum, dificilmente teria guardado na memória, com carinho, a imagem da Panqueca – sua barbicha, sua pança; também dificilmente teria essa espécie de orgulho infantil, que me faz sempre abrir um sorriso, de minha discreta cicatriz no braço esquerdo.

Atualmente pouco afeito à vida no campo, já fui, a minha maneira, um legítimo fazendeiro. Há quem possa razoavelmente contestar – “Você pescava? Laçava boi? Montava cavalo?” -, mas pouco importa; era como eu me via. Passou o tempo, foi-se todo um momento. Hoje me vejo algo diferente - objetar pra quê? Não me importo; deixo estar, e relembro.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Le zoo de Vincennes .
Bénabar

Le rhinocéros du zoo de Vincennes
Sa peau est une écorce qui craquelle, il traîne
Licorne monstrueuse aux paupières de terre glaise
Mastodonte de peine sans espoir de remise

Vieillard, un enclos de béton vieux
Vieille gloire, un hospice de banlieue
A l’étroit piégé dans le zoo de Vincennes
Une baleine noyée dans les eaux de la Seine

Quel chagrin, quel triste monde
Où la savane se fane à l’ombre
De la fausse montagne du zoo de Vincennes

Dans ce minable safari domestique
Où même le roi de la jungle abdique
Loin de la savane et des vastes plaines
Le lion est un vieux beau à bedaine

Crinière en calvitie, derrière son grillage
Il ne tourne même plus comme un lion en cage
A quoi bon encore jouer les bêtes féroces
Quand on ne fait même plus peur aux gosses

Sous la volière des rapaces résignés
Regardent en l’air sans plus rien espérer
A côté les simagrées des singes sans gène
Et un petit train que les enfants dédaignent

Un couple d’éléphants piétine d’ennui
Aux défenses d’ivoire inutiles et ternies
Pour essayer d’atténuer la déprime qui les gagne
Faudrait un Lexomil gros comme un pain de campagne

Est-ce que chez eux, les enfants d’Afrique
Vont visiter des parcs zoologiques
Pour voir enfermées des bêtes qui viennent de loin
des chats, des pigeons, des horodateurs ou des chiens

Le zoo de Vincennes, sinistre fête foraine
Arche de Noé de banlieue parisienne
Curieuse ménagerie triste et funèbre
Où les animaux s’emmerdent.

[Para ouvir a música, clique aqui ]

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Os Politécnicos .
Vinicius de Moraes

Fui a São Paulo, a convite do Grêmio dos Politécnicos, bater um papo com os rapazes em sua Faculdade. Recusei-me a fazer uma palestra, pois sou homem de língua emperrada; mas os motivos para a minha ida, como me foram apresentados pelos futuros engenheiros paulistas, pareceram-me bastante válidos, além de modestos. Têm eles que a carreira escolhida oferece o perigo de canalizar o pensamento para problemas puramente tecnológicos, em prejuízo de uma humanização mais vasta, tal como a que pode ser adquirida em contato com o homem em geral e as artes em particular.

Há muito não me sentava diante de tantos moços, com um microfone na mão, para lhes responder sobre o que desse e viesse. "Quem sou eu", perguntei-me, não sem uma certa amargura, "quem sou eu, que não sei sequer consertar uma tomada elétrica, para arrogar-me o direito de vir responder às perguntas destes jovens que amanhã estarão construindo obras concretas e positivas para auxiliar o desenvolvimento deste louco país?" Mas eles, aparentemente, pensavam o contrário, pois puseram-se a bombardear-me de perguntas que, falar verdade, não dependiam em nada de cálculos, senão de experiência, bom-senso e um grão de poesia. Providenciaram mesmo uma bonita cantorazinha de nome Mariana, que estreava na boate Cave (de onde partiram para a fama Almir Ribeiro e Morgana) para cantar coisas minhas e de Antônio Carlos Jobim: o que era feito depois de eu responder se acreditava ou não em Deus, como explicava a existência de mulheres feias e o que pensava de João Gilberto.

A homenagem foi simpática, mas no meio daquilo tudo comecei a ser tomado por uma sensação estranha. Aqueles rapazes todos que estavam ali, cada um com a sua personalidade própria - João gostando de romance Lolita, Pedro detestando; Luís preferindo mulatas, Carlos louras; Francisco acreditando em Karl Marx, Júlio em Jânio Quadros; Kimura preferindo filme de mocinho, Giovanni gostando mais de cinema francês - já não os tinha visto eu em outras circunstâncias, em outros tempos? Aquele painel de rostos desabrochando para a vida, aqueles olhos sequiosos ao mesmo tempo de amor e de conhecimento, não eram eles o primeiro plano de uma imagem que se ia perder no vórtice de uma perspectiva interminável, como num jogo de espelhos? Atrás de cada uma daquelas faces não havia o fotograma menor de outra face, como ela ávida de saber o porquê das coisas, e atrás dessa outra, e mais outra, e outra ainda? Vi-os, de repente, todos fardados me olhando, atentos às instruções de guerra que eu lhes dava em voz monótona: "Os três grupos decolarão em intervalos de cinco minutos, e deixarão cair sua carga de bombas nos objetivos A, B e c, tal como se vê no mapa. É favor acertarem os relógios..." Mariana cantava, um pouco tímida diante de tantos rapazes, a minha "Serenata do adeus":
Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora...

Qual daqueles moços seria um dia ministro? Qual seria assassino? Quem, dentre eles, trairia primeiro o anjo de sua própria mocidade? Qual viraria grã-fino? Qual ficaria louco?

Tive vontade de gritar-lhes: "Não acreditem em mim! Eu também não sei nada! Só sei que diante de mim existe aberta uma grande porta escura, e além dela é o infinito - um infinito que não acaba nunca. Só sei que a vida é muito curta demais para viver e muito longa demais para morrer!"

Mas ao olhar mais uma vez seus rostos pensativos diante da canção que lhes falava das dores de amar, meu coração subitamente se acendeu numa grande chama de amor por eles, como se eles fossem todos filhos meus. E eu me armei de todas as armas da minha esperança no destino do homem para defender minha progênie, e bebi do copo que eles haviam me oferecido, e porque estávamos todos um pouco emocionados, rimos juntos quando a canção terminou. E eu fiquei certo de que nenhum deles seria nunca um louco, um traidor ou um assassino porque eu os amava tanto, e o meu amor haveria de protegê-los contra os males de viver.

[MORAES, V. Para viver um grande amor. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008 (Coleção Folha Grandes Escritores Brasileiros, V. 9)]

sábado, 31 de dezembro de 2011

O Andaime
Fernando Pessoa

...
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!

Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.

A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças,
Mas as mortas esperanças -
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim -
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser - muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o alvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

sábado, 19 de novembro de 2011

do chão levantado .
citação

Cria a natureza as suas diversas criaturas com admirável brutidade. Entre mortos e aleijados, considera, não faltará quem escape para garantir os resultados da gerência, modo ambivalente e portanto equívoco de substantivar o gerir e o gerar, com aquela confortável margem de imprecisão que produz as mutações do que se diz, do que se faz e do que se é. Não marca a natureza coutadas, mas aproveita delas. E se depois das ceifas os mil formigueiros da seara não têm celeiro igual, os ganhos e perdas vão todos à grande contabilidade do planeta e nenhuma formiga fica sem a sua estatística parte de alimento. Ao apuramento do saldo importa pouco que tenham morrido aos milhões por inundação natural, revolvimento de enxada ou desafio de micções: quem viveu, comeu, quem morreu deixou aos outros. A natureza não conta mortos, conta vivos, e, quando estes lhe sobejam, arranja uma nova mortandade. É tudo muito fácil, muito claro e muito justo, porque, de memória de formiga ou elefante, ninguém tal contestou no grande reino dos animais.

Felizmente, o homem é o rei deles. Pode portanto fazer as suas contas de papel e lápis, ou essas outras mais subtis que se exprimem em murmúrios, meias palavras subentendidas, relances de olhos e acenos de cabeça. Nesta mímica e onomatopeia se juntam, em mais grosseiro, as danças e cantares de luta, sedução e aliciamento que usam certos animais para obtenção de seus fins...

SARAMAGO, José. Levantado do Chão. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010, p. 45-46.

domingo, 6 de novembro de 2011

tô quase .

Meu impulso, bem confesso, pendia para dois, no máximo três parágrafos amargurados, com epicentro em uma chateação do dia dezessete. Tudo tão tedioso, que me cansei antes mesmo de começar – que cara mais chato! Então, em suspenso, pensei: por que não me imaginar já em dezembro? O blog é meu, posso tudo o que me permitir. Et... voilà. É um tremendo peso que me cai dos ombros. Dezembro é um mês atípico. Um calor de matar, resmungam transeuntes, e no bem gelado dos shoppings, os jingles insistem em inventar um já-natal enevoado. Pode ser, sim, selvagem recurso publicitário das variadas magazines – e o que não é, quando se têm [chateação das chateações] abertos os olhos à crítica anti-capitalista? Mas eu no fundo gosto. Tenho uma simpatia condescendente com a combinação um tanto grotesca de tradições reinventadas e exageros pendentes ao ridículo – desde que limitados, é importante ressalvar, ao período do bunda-lelê acadêmico; aos dias de bem-bom, que literalmente correm entre dezembro e fevereiro. Isso tudo me diverte; fico num quase suspenso – e não deveria ser para menos! No todo-restante dia-a-dia letivo, contudo, transbordo seriedade [para compensar?]. Pelo menos é o que digo. Se verdade ou não, com dezembro já a toda, só mesmo março para sanar eventuais desconfianças – sendo fortes as suspeitas, há que esperar, ver, ou não ver; sem outro remédio. Por ora, no oba-oba justificado, nada ou pouco importa: somos todos gatos e pardos. E é assim, e assim. Tudo da maior importância! Findo o parágrafo-abstração, é parar e pensar: Natal, Ano Novo, Carnaval – hum... tá quase.

sábado, 22 de outubro de 2011

do saramago, novamente .

Esta expressão sisuda e seca que passeio pelas ruas engana toda a gente. No fundo, sou um bom sujeito, com uma só confessada fraqueza de má vizinhança: a ironia. Ainda assim, procuro trocar-lhe as voltas e trato de trazê-la à trela (as aliterações dos nossos trisavós estão outra vez na moda) para que a vida não se me torne em demasia desconfortável. Mas devo confessar que ela me vale como receita de bom médico sempre que a outra porta de saída teria de ser a indignação. Às vezes o impudor é tanto, tão maltratada a verdade, tão ridicularizada a justiça, que se não troço, estoiro de justíssimo furor.


SARAMAGO, J. A Bagagem do Viajante. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 179.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

tem certas coisas que eu não sei dizer .

2007. Eu tinha certeza de não estar no lugar certo. Todas aquelas pessoas... E eu. Não parecia adequado. Eu procurava um hobby. E só. Um total desastre. Aulas, aulas, textos e mais textos. Confesso não ter tido uma compreensão imediata. As memórias do mediterrâneo e a briga de galos em Bali me pareciam um esforço desnecessário e Marx permanecia um fantasma a me assustar – insistir para quê? Não precisava sequer inventar uma alternativa. Bastava esperar um semestre.

Um semestre. Não foi preciso tanto tempo, para me convencerem. Gestos simples, como o de um calouro de nariz vermelho, puxando papo furado no primeiro dia – quando eu já me livrara de minha parcela de guache e voltava, cabisbaixo, para casa. Ou a tolerância de um grupo insistente, em conversas infinitas – em intervalos, aulas vagas e reuniões de trabalho. Eu podia ser chato. Podia discordar e discutir. Me convenceram a ficar.

A ficar e a tomar gosto pela coisa. As aulas se multiplicaram – e se multiplicaram os interesses; os grupos. Mais gente, outros assuntos, novos amigos. Continuaram as conversas. E as discordantes concordatas. Com acentuadas diferenças, entendemos.

Eu acho que entendi. Aprendi a fazer mais perguntas, e a esperar menos das respostas; a insistir em algumas idéias, e a desistir de muitas outras; a tomar partido, e a me deixar influenciar.

Influências.

2011. Todas essas pessoas... E eu. Não parecia adequado. Não imagino diferente.

...

Certas Coisas

Lulu Santos/Nelso Motta

Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...
Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...
Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...


domingo, 5 de junho de 2011

chave do tamanho .

Enquanto crescer permaneceu no horizonte do possível, foi-me razoável anunciar escolhas as menos prováveis. Afirmei, categórica e alternadamente, que seria policial, bombeiro, cientista, astronauta, veterinário, ator. Passados uns anos tantos, opções em muito determinantes já feitas, fica evidente o quanto perdi dessa hipotética “liberdade de escolha” inicialmente estimulada. Talvez em uma inconformada resistência, contudo, encaro como ainda curiosa a reação de decepcionada surpresa – o inconfundível amarelar do sorriso – quando me afirmo, com discreta ironia em pompa, um futuro historiador, em potencial.

Aparentemente, se nem todas as ocupações são lícitas, menor é grupo daquelas que convêm. Na balança da escolha profissional, é provável haver um sobrepeso no que se refere à estabilidade, em detrimento de outros muitos ideais, por demais abstratos – afinal, vocação, realização e aspiração devem ser conceitos de aferição por demais difícil e, diante da inegável demanda material, em muito desprezíveis. Deve ser mesmo aconselhável buscar, acima de tudo, a almejável e harmoniosa segurança – que abaliza um futuro sem riscos; quase esterilizado.

Pode parecer contraditório que, justamente eu – hipotético militante da contramão de escolhas sensatas –, tenha, em recentes papeados, inconveniente e recorrentemente indagado sobre a probabilidade do “dar certo na vida”. Nada mais inevitável. Em meio a tantos porquês, parece ser tudo não mais que senões. O encerrar de um ciclo, com impositivas novas escolhas, torna ainda mais evidentes as dificuldades acentuadas de uma opção por caminhos estreitos. Não é uma surpresa, como se com elas me deparasse desavisado, mas uma situação que incentiva um retomar quase epistemológico (haha...) de escolhas aparentemente consolidadas.

[Um aviso: eu penso, e penso, e escrevo tudo mesmo de uma vez – com pé, e sem cabeça. Este é mais um daqueles textos que devem, em muito, ser ignorados. Especificidade de um blog; um texto público privado.]

Consciente do privilegiado lugar a partir de onde falo, reafirmo um potencial direito a livremente escolher – tendo em conta prós e contras, com as devidas treplicadas réplicas. O direito de fazer uma opção, e de mudar de idéia; de tentar. Conformando-me com as limitações do fato de que não mais devo crescer, que eu possa ao menos explorar as possibilidades da minha estatura – toda uma dimensão do que me é particular.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

de canterano, uma história .

“Canterano é uma comuna italiana da região do Lácio, província de Roma, com cerca de 372 habitantes. Estende-se por uma área de 7 km², tendo uma densidade populacional de 53 hab/km². Faz fronteira com Agosta, Gerano, Rocca Canterano, Rocca Santo Stefano, Subiaco.” (“Canterano”. In: Wikipedia.)

Posso me gabar de, no que diz respeito a Canterano, saber bem mais que a Wikipedia. E de ter fotos - inexistentes no verbete acima [integralmente] reproduzido. Tudo isso e mais lembranças de um agradável jantar inusitado.

Passava das 18h, quando, com meu novo amigo, Michael R. – que encontrei pela primeira [e única] vez algumas horas mais cedo –, entrei num ônibus de cujo destino final confesso nunca ter tomado nota. Estava por demais preocupado: havia me sentado sem pagar pela passagem. Apenas mais um de meus [recorrentes, e sempre contornáveis] percalços de comunicação, acentuado pela pressa. Para conseguir chegar a Canterano e voltar no último ônibus para Roma, precisava agir com celeridade. Diante do potencial embaraço, ficou acordado: caso me fosse exigido um bilhete, agiria como um turista desavisado, mostrando meu Roma Pass [cuja área de abrangência limitava-se à região metropolitana] e demonstrando total desconhecimento do italiano. Michael, para evitar constrangimentos, daria a cobertura necessária, se preciso fosse – um bom amigo, posso, desde já, afirmar.

Já havia escurecido, quando deixamos o terminal rodoviário. E após cerca de uma hora de conversa jogada fora, saltamos. Michael tinha um carro estacionado a sua espera, à beira da estrada – dirigindo o veículo, emprestado por seu tio, ele chega diariamente à estrada onde passa o ônibus para a capital. De carro, estendeu-se por mais alguns minutos o caminho. Subindo; sempre subindo. Pelas janelas, já não era possível avistar paisagem alguma. Impossível entender direito onde estava – já havia perdido qualquer noção de direção. Quando enfim alcançamos o topo do monte, fui informado de que havíamos chegado.

Canterano me pareceu incrivelmente simpática. Uma velha igreja, duas praças, duas mercearias. Na casa de Michael, não podia ter sido mais bem recebido. Junto com sua família, um saboroso italiano jantar me aguardava. Apesar de minha incapacidade de comunicação no idioma, foi possível compreender muitas coisas. Ou pelo menos o suficiente: entendi que era muito bem-vindo.

Após um passeio pelas praças, um picolé [delicioso, apesar do frio cortante – era inverno e estávamos no topo do monte] e um tradicional rocambole de chocolate, prometi à mãe de meu amigo, numa grosseira tentativa de expressão em italiano, que, quando voltasse à Itália, passaria “almeno tre giorni” em sua casa. Então refiz o caminho, em sentido inverso: desci de carro, peguei o ônibus, entrei no metrô, andei mais uns minutos a pé e, um pouco sem acreditar, cheguei ao hostel e dormi, satisfeito com um memorável dia – longe de casa e de qualquer referência ao conhecido.

Alguns meses antes, havia recebido um e-mail de Richard, um irlandês que passaria seis meses em Lisboa para aprender o português. Ele havia encontrado meu endereço no site dos Erasmus e me escreveu, para saber se eu toparia encontrá-lo para praticarmos inglês e português. Depois de uns tantos cafés, muitas conversas e algumas viagens pela região, me despedi dele mais confiante de que valia a pena arriscar fazer amigos por meios diferentes dos que me eram habituais. E então, planejando meu modesto tour de fim de viagem, acessei o site da Carta Giovani e escrevi para uns poucos endereços selecionados. Michael foi o único a me responder. Coincidentemente, ele disse estudar “português brasileiro” na Università degli Studi di Roma "La Sapienza" e, após uns tantos e-mails [em inglês, novamente], dispôs-se a ser meu guia em Roma. Por desencontros nos calendários, só pudemos nos encontrar uma vez. Foi, sem dúvida, o melhor dos sete dias que passei na Itália. Conheci, além de pontos turísticos tradicionais em Roma, lugares conhecidos apenas por locais [como a simpática loja onde se pode comprar o melhor tiramissú da Itália]. E foi assim, de surpresa, que recebi, no meio da tarde, um convite para ir à casa de meu novo amigo, numa cidadezinha não muito distante.

Impossível esquecer algumas das tantas pessoas com quem encontrei, ao longo desses meses longe daquilo que me é familiar. Para alguém com considerável dificuldade de comunicação, nada como pegar uma mochila, uns mapas e ter que me virar, aparentemente sozinho. Depois de quebrar a cabeça tentando ser independente, fui obrigado a pedir ajuda, a arriscar conversas [em espanhol, francês, inglês, italiano – sabendo ou não me expressar devidamente], a conhecer estranhos. Viajar tem disso, e vale muito mais quando se está disposto a passear pelo desconhecido, ampliando horizontes. Afinal, é assim que se enriquecem lembranças - que se recolhem casos e se constroem relatos.

Diz-se que quem tem boca vai a Roma. Pois de Roma a Canterano, quem tem boca conta uma história.

sábado, 15 de janeiro de 2011

intempestividade .

Nos últimos dias, têm sido freqüentes imagens e manchetes sobre a região serrana do Rio de Janeiro. A primeira vez que vejo minha cidade, Teresópolis, em um periódico internacional* associa-se tragicamente a um desastre de dimensão imensa. Com mais de 600 mortos e de 10 mil pessoas desalojadas, a região sofre; padece os efeitos acumulados de intempéries, da falta de planejamento, investimento, controle... de imprevistos e irresponsabilidades mil. Sente as dores de destruição, de danos, de perdas. Impossível não me sentir afetado pela tristeza real das pessoas que figuram em números, relatos e fotografias; não me sentir incomodamente inquieto diante de tamanho caos. De longe – e perto –, faltam-me palavras. Lastimar não basta, mas não se podem evitar lamentos. Em privado, marejam-me os olhos.

da dor do não mais ter
[ou empatia II]

Perder, quando muito se estima, é – como vozes outras já têm dito – ver-se sem um pedaço do que se julga ser; tão íntimo, que parece ligado à essência, essa abstração que se concretiza, em dores, espasmos, choro. Lamentar parece pouco. Re-ter, impossível. Mas deixar? Não parece certo; não parece justo: não. Um impasse. Lembranças, pendências, saudade. Tudo, ao mesmo tempo, revela-se – às claras. Juntando-se; conformando-se à dor. Angústia. Gritar, correr, fugir, voltar? Não volta. É passado, quando ainda está presente. É um desde já memória; inconformada fonte para, depois, elaborar-se história. Sacralizam-se migalhas do que já se foi. Reajustam-se e ressignificam-se trechos de um cotidiano distanciado pela força da ausência; imposição do imediato. Invertem-se conceitos, revogam-se prioridades. Trocam-se pés por mãos, dificultando a sensação de um mundo já de ponta cabeça. É, ao mesmo tempo, dar-se conta e rejeitar. É percepção da negação do desapego. A dor do ainda, contudo, guardar.

Texto primeiramente postado no dia 06 de Setembro de 2009 - post original.


* Como referência: no Metro, de Lisboa; no El País, de Madri; no Le Monde, de Paris; no BBC, de Londres.

>>> Para saber como ajudar os vitimados, clique aqui.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

tás bem? nem por isso!* .

“É o assunto do momento. Os noticiários falam de despedimentos, greves, recessão e fome. Muitas famílias já sofreram cortes no rendimento e (...) a situação deverá piorar no próximo ano. Os pais estão preocupados. Mas será que os filhos sabem o que realmente se passa? Enquanto uns perguntam se o primeiro-ministro José Sócrates anda de casa em casa a roubar o dinheiro às pessoas, outros acreditam que o Fundo Monetário Internacional são ‘aqueles senhores que vêm atacar o País porque o País está muito mal’; e outros ainda consideram que a melhor forma de solucionar o problema está em fazer mais notas e moedas ou mesmo emigrar com a família para fugir à crise econômica.” [As curiosidades das crianças sobre a crise. Destak, 02/12/10, p. 08. Disponível para leitura aqui ]

A recorrência do tópico “crise” nos diários e no quotidiano lusos não comporta ilusões: o país encontra-se em situação difícil. Em uma tal conjuntura, confundem-se política, economia, planejamentos e história, evidenciando dúvidas, otimismo e desencanto; mitos, tradições e preconceitos. Nas disputas [ideológicas] em torno do que 2011 prenuncia, há uma miríade de visões, em embate. Em comum, um pessimismo generalizado – muitas vezes misturado a um saudosismo que, utópico, anestesia a percepção do futuro.

Também nos principais periódicos internacionais, a crise européia – com seus malfadados peões: Portugal, Irlanda, Grécia – é temática freqüente. Não é necessário, portanto, fazer eco às evidentes notas de uma tragédia anunciada. Acolhidas nos casuais parágrafos opinativos, contudo, insinuações bastante diversificadas servem de indicador do modo com que diferentes portugueses lidam com as dificuldades que estão obrigados a enfrentar. Como não podia deixar de ser, é do descerimonioso Metro que se retiram trechos aqui oportunamente elencados – enxuto, acessível e gratuito, o diário, popular, é importante recurso informativo na terrinha.
“É melhor aproveitar, porque vem aí um ano para lembrar. Ou esquecer... Uma pessoa nem sabe por onde começar. Talvez pela economia: vêm aí os cortes de salários e as subidas de impostos, e a recessão. O país vai continuar em dificuldades para pagar a dívida externa e apresenta-se em todo o seu esplendor a ameaça de saída do euro. O que nos conduz à nossa Europa e à sua manifesta incapacidade para lidar com isso que nos está a acontecer (a nós e, vendo bem, aos outros todos). A Europa, que tem sido o nosso farol de progresso, ameaça apagar-se numa algaraviada deprimente. (...) Como retoque final, aproxima-se também a hipótese de disfuncionalidade política (...). Em 2011, a ameaça é de colapso econômico, europeu e político, e todos estão ligados entre si. Para que a catástrofe não seja total, resta esperar que consigamos distinguir o essencial do acessório. Como num incêndio: só salvamos aquilo sem o qual não podemos viver. E para o salvarmos, é melhor deixar arder o resto”. [Um ano para lembrar. Metro, 16/12/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
Lida-se, percebe-se, com um anunciado risco de catástrofe total. Em níveis europeu e nacional, economia e política apresentam-se em deficiência e a recorrência da temática alimenta, inevitavelmente, exagero e desesperança. Como bem diagnostica um colunista, os portugueses, em vez de tranqüilizados, são “confrontados com discursos que oscilam entre o optimismo delirante e o derrotismo irremediável”. Afinal, “o discurso sobre a crise não é saudável. A dívida pública, o desemprego, a crise tomaram conta do ar que precisamos para viver. As notícias sobre uma possível vinda do FMI, que nos poria a todos na ordem, sobre os juros da dívida a aumentar, e a falta de dinheiro em geral asfixiaram o quotidiano das pessoas”. [Medidas de austeridade. Metro, 01/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui] Um tanto mais metafórico, outro articulista vaticina: “a situação política portuguesa está a ficar perigosamente parecida com um jogo de xadrez em que os jogadores resolveram aplicar as regras do pôquer e movem as peças fazendo estranhos movimentos de bluff (...). Os efeitos da crise na imprensa e nos comentadores também são curiosos (...). O País está obcecado pela crise”. [Um jogo de xadrez. Metro, 12/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]

Mais que um aparente desespero; um verdadeiro desencanto. Enfraquecido o Governo, fortalecem-se as correntes críticas à República – aproveitando, ainda, os resquícios de um desastroso centenário republicano.
“Num regime cuja única memória histórica é negativa (...) a República serviria de fundação histórica à democracia. Tratava-se de encontrar para Portugal o equivalente das celebrações da revolução francesa ou da revolução americana. Mas tudo correu mal. Com o regime a atravessar a sua pior crise desde a instauração, aquilo que deveria ter sido a grande festa de uma democracia consolidada colidiu com a realidade de uma democracia cheia de dúvidas sobre a sua viabilidade. Num certo sentido, ainda bem. Seria um erro fundar a corrente democracia num regime que de democrático apenas teve o nome que atribuiu a si próprio (...). Se a democracia quer encontrar uma fundação histórica ao estilo do 14 de julho ou do 4 de julho deveria ver a monarquia constitucional como momento-chave (...). Deste modo, o centenário lá passou perante a indiferença geral. Ao menos assim não se juntou um grande erro simbólico ao que hoje já está errado em Portugal”. [Repúblicas. Metro, 14/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
Por exaltado que seja, um tal posicionamento não deixa de ser revelador. Diante da desesperança quanto ao futuro do regime presente, voltam-se os olhos para o passado, maquiando-o com ilusórias soluções simbólicas. De acordo com um leitor do Metro, vive-se, em Portugal, o esmagar de duas crises massivas. Uma, mundial; outra, nacional, antecedente. Diante desse quadro, urgiria “acreditar na força do carisma luso, que nos levou mar dentro a desbravar novas terras. Acreditar que somos um país pobre no que às dimensões geográficas se refere, mas rico e único em mercados específicos que serão, certamente, o rumo a tomar para depor este séquito de latência”. [Correio – Portugal. Metro, 29/09/10, p. 09. Disponível para leitura aqui] E os apanágios aos lusitanos míticos continuam. Em palavras de um colunista, há, no país, um povo “tolerante, aberto e universalista. Três singelas, mas preciosas qualidades que, transformadas em habilidades, poderiam ser a especiaria do novo milênio. Os ventos de hoje querem-se cooperantes. (...) Tudo isto está na essência de ser português. Ou seja, para voltar a mostrar novos mundos ao Mundo, basta que acreditemos noutro fado. ‘Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo’ (F. Pessoa)”. [Nós, Portugal, o poder ser. Metro, 05/10/10, p. 05. Disponível para leitura aqui]

Tolerância, abertura, universalismo. Parece não se tratar do país que, apesar do publicado em manchetes, tanta dificuldade apresenta, em relação aos imigrantes. Na capa do Metro, em inícios de dezembro, lia-se: “somos bons amigos dos imigrantes”. Aparentemente, “estrangeiros são bem recebidos pelos portugueses”. Afinal, “políticas portuguesas de integração são ‘bom exemplo’, considera OIM”. [Metro, 02/12/10, p. 01, 04. Disponível para leitura aqui e aqui] No entanto, quando do anúncio, pelo mesmo periódico, do Programa de Apoio ao Retorno Voluntário; um “subsídio para estrangeiros, promovido pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e co-financiado pelo governo português”, cujo objetivo principal é “reenviar para o país de origem os imigrantes que estão sem trabalho e em situação precária em Portugal” [Imigrantes ajudados a sair do país. Metro, 20/10/10, p. 06. Disponível para leitura aqui], ouvia-se, nos bancos do metro, pessoas dizerem “finalmente os brasileiros irão embora. Infelizmente, nós é que pagaremos as contas dos bilhetes aéreos”.

Diante da mais alta taxa de desemprego de que se tem registro no país, parte da culpa parece recair nos imigrantes. Indaga-se um leitor: “por que continuamos a privilegiar a mão-de-obra barata vinda do exterior em detrimento da mão-de-obra qualificada portuguesa? Com o corte nos salários podemos ainda assistir ao efeito de saída de recursos humanos altamente qualificados para o exterior”. [Correio – Desemprego. Metro, 23/12/10, p. 10. Disponível para leitura aqui] Levada a problemática a extremos alarmantes, lê-se ainda, em páginas do diário português:
“‘Integração de imigrantes, ou estamos a pagar para sermos invadidos?! Fundos comunitários? (...) eis a bela vergonha que este País se tornou, pagamos para ser colonizados por milhares de extra-europeus que vão destruir a nossa identidade (...). Vivem à conta do estado social, aumentam a criminalidade violenta (...) corroem a nação portuguesa (...)’. Um leitor do Publico online ‘respondia’ exaltado a um artigo daquele diário sobre as virtudes do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante (CNAI) (...). Aquele leitor pode não ser uma amostra nacional de um pensamento perigoso sobre imigração. Mas também pode ser, não sabemos. Alguém já fez um inquérito? (...) Nações que acolhem imigrantes, como Portugal, têm ainda muito a fazer, apesar do garboso trabalho do CNAI e demais entidades (e dos milhões indisciplinadamente colocados na ‘integração’). Porque, na verdade, todas estão a falhar. A não ser que os imigrantes não queiram ser ‘integrados’(...). Há, de facto, muito a fazer, mas dos dois lados da equação. Antes que seja tarde”. [“Integrados” contra vontade? Metro, 18/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
E, no entanto, percebe-se, a partir de propaganda turística lisboeta, a [contraditória?] importância de brasileiros para a economia lusa. “Os turistas brasileiros visitam cada vez mais Lisboa e numa média de três noites na capital gastam 969 euros (...). O projecto ‘Lisboa Convida’(...) iniciativa [que] visa acabar com a imagem de Lisboa ‘um bocado provinciana’ cheia de conotações do passado como o ‘Manoel padeiro e pessoas com bigode’”. Surpreendentemente, notam-se os esforços lusos para inventar e divulgar sua efígie: “‘Somos uma cidade com uma imagem forte, falamos a mesma língua e somos uma formidável porta de entrada para a Europa’(...) o mercado brasileiro está a ser trabalhado ‘mais aprofundadamente’ desde 2009 (...) mercado ‘extraordinariamente importante para Lisboa’”. [Turismo da capital ganha prémio no Brasil. Metro, 30/11/10, p. 04. Disponível para leitura aqui]

Em muito, parte de grandes empenhos portugueses a ilusão européia que tanto atraiu imigrantes. Divulga-se no Brasil uma Europa que, por essas bandas, oscila entre panacéia e quimera. Enquanto para uns “a Europa que temos foi feita para garantir a paz e promover a prosperidade. (...) a alternativa à Europa que temos é mais Europa. Se querem um fundo para salvar os países em crise, é necessária mais cooperação e coordenação econômica. É pela economia que vamos chegar ao governo europeu. O pior que pode acontecer é fingir que não percebemos” [Conhecer o caminho. Metro, 20/12/10, p. 10. Disponível para leitura aqui], outros entendem justamente o contrário.
“Apesar de tudo o que nos está a acontecer ser de nossa responsabilidade (sem dúvida alguma: neste país o poder ainda vai sendo eleito, não imposto) já uma frase que a ‘crise’ trouxe à ribalta que me deixa incomodado: ‘não há alternativa’. Não há alternativa à União Europeia, ao Euro, à Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu. Estar encurralado não é coisa que caia bem, suponho que a todos nós. Se bem percebo, o que essa larga maioria de políticos avisa é: ou ‘estamos’ na Europa ou... Ou o quê? Implodimos? Morreremos todos à fome? O dilúvio varre Portugal continental e ilhas adjacentes do Mundo? Tenho dúvidas (...). Há certamente alternativas, mas tem sido mais cômodo não pensar nelas e culpar ‘Bruxelas’ e o Mundo em geral pela situação triste em que nos obrigam a viver (...). gostamos de trabalhar e somos criativos, dez milhões de pessoas simpáticas que sabem conviver e se entendem com o Mundo tenha ele a cor que tiver. Deve haver alternativas à ‘Europa’ (....) O que é que um pais com 871 anos de História pode ensinar a uma instituição com apenas 18?” [Reflexão Natalicia. Metro, 20/12/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
Portugal está em crise. Não há dúvidas, nem imediatas soluções aparentes. Enquanto sobem impostos, preços e desemprego, despencam os salários e encolhem postos de trabalho. Nas universidades, campo de formação intelectual e de qualificação profissional, a crise é ainda mais antiga, e acentua-se, com os prognósticos negativos do mundo pós-campi. Em um tal cenário, aguça-se, em parte, a falta de sentido percebida em meios acadêmicos – em muito, afetados pelas reformas de Bolonha, que enxugaram cursos e propostas, uniformizando currículos europeus e esvaziando de sentido a graduação. Nesse contexto, as capas pretas, as praxes e as festas adquirem um sentido todo especial: são marcas de um tempo que já passou; resquícios simbólicos, lembranças com sobrevida em um quotidiano em colapso.

...
* "Nem por isso" é uma expressão portuguesa negativa; equivale ao "not really", do inglês.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

il faut se réveiller
mais pas encore * . .

2011 anuncia-se impositivo. Se o ano passado marcou-se pela jornada do intercâmbio – de idealizações aos inevitáveis desenganos e surpresas –, o corrente, início de nova década, prenuncia encerramentos – do retorno a casa à conclusão da graduação. É preciso retomar os livros, as aulas, o rumo: escrever monografia, cursar últimas disciplinas do curso e encarar o processo seletivo do mestrado – elaborar projeto de pesquisa, estudar a não mais poder. Não exatamente metas; compromissos que se impõem, de antemão. Tenho saudade de casa – a família, os amigos, o [bem] estar entre brasileiros – e, para descanso de meus pais, admito já ser mesmo tempo de encerrar essa primeira fase na universidade. Nesses últimos meses que me restam, contudo, prolongo 2010, um ano que foi [tem sido?] ao mesmo tempo progresso e pausa; momento de tomar importantes decisões e de relaxar, sem um grande sentimento de culpa. E adiando compromissos e despedidas – mais uma vantagem de permanecer no velho mundo após o réveillon –, cruzo dedos para tudo que o 2011 pressagia. Quero, sim, um feliz ano novo, mas não antes da quarta-feira de cinzas. Até lá, deixa o barco correr... seja o que Deus quiser!

...
* é preciso acordar, mas não ainda.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

o mundo é muita grande ...

No pouco tempo em que estive em Salamanca, fui a uma festa. Obviamente, também visitei locais turísticos e tirei fotos a não mais poder, mas essa atitude de admiração entusiasmada e constante é de se esperar de um turista típico; não causa surpresa. A festa, contudo, apesar de habitual em cidades universitárias com elevado teor de erasmus, surpreendeu um tanto. Foi na casa de brasileiros – amigos de amigos que fiz em Lisboa. Assim que lá cheguei, um dos anfitriões veio falar comigo: “oi, você é de Terê? Estudou no GM? É irmão da Mari?” Muitos apelidos e perguntas específicas e certeiras a meu respeito; levei um susto. Foi quando o questionador esclareceu: ele havia estudado com minha irmã no mesmo colégio que eu, em Teresópolis, e me reconheceu... em Salamanca – uma cidade miúda, a três horas de Madri.

Uma das primeiras resoluções que tomei, ao sair do Brasil, foi aposentar minha agenda. Estando acostumado a planejar, programar e listar compromissos e tarefas, decidi que experimentaria o que há de bom e de ruim em uma rotina menos sistemática. Se diferença é palavra-chave deste semestre longe de casa, por que não iniciar o período com uma mudança de atitude? Entrei no jogo e me permiti uma relativa liberdade cotidiana – que resultou em uma estranha sensação de desprendimento e em um ou outro compromisso esquecido. Tem sido interessante.

Devido, talvez, a essa confusão no calendário, no entanto, meus dias lisboetas foram afetados por férias que ainda não chegaram. Corre a última semana de aulas, apesar de o período letivo não se encerrar senão em meados de fevereiro – o mês de janeiro destina-se inteiramente a provas e trabalhos –, e só quero imaginar viagens. É fato que, por desinteresse justificável, não tenho me dedicado tanto às aulas na Universidade – e que os professores adiantarão os compromissos letivos para sermos todos liberados o mais cedo possível. Quando paro para pensar nos dias que me restam por aqui, contudo, sinto falta de uma agenda. Além dos tais trabalhos e provas, tenho uma pesquisa em andamento – como aspirante a historiador, as idas ao arquivo justificam e legitimam, por si, meu tempo em Portugal – e alguns destinos em suspenso.

Hoje à tarde, um professor, abordando a expansão do cristianismo, enumerou, ligeira e um tanto aleatoriamente, locais em que havia clérigos missionários no século XVII. Após breve reflexão sobre as diferenças entre povos e culturas, ele exclamou: “o mundo é muita grande; muita grande”. Assumo que demorei um tanto para entender a ocorrência do “muita” como advérbio no português europeu. De início, só o que eu notava eram a falta de sentido e a arbitrariedade. Foi a Cacau que explicou: utiliza-se tal forma para, por meio da diferenciação e do destaque, potencializar a idéia de “muito”. A expressão do professor, portanto, equivale informalmente a enorme. Apesar de o estranhamento permanecer, concordo com ele. Estando em Portugal; na pontinha da Europa, sinto-me bastante perto de muitos dos lugares que quero visitar. Abro o site da easyjet e invento uma série de roteiros lowcost. O orçamento, a prudência e os compromissos, contudo, impõem seus limites: é preciso planejar com cautela e eleger uns poucos destinos, em detrimento dos outros todos. Com tantas opções interessantes, é difícil fazer escolhas/concessões - a questão complica-se ainda mais, quando se tentam conciliar agendas e roteiros para, alhures, topar com amigos. Recobram-se, assim, as distâncias; as pujantes dimensões da realidade.

No dia seguinte à festa a que me referi no início do post, recebi uma mensagem de minha irmã – “sei de seu paradeiro em Salamanca; cuidado comigo” – e entrei em um ônibus, a suspirar coincidências. Fui-me embora para Madri, onde tirei fotos, visitei parques e museus, comi tortilla e encontrei um amigo. O mundo é mesmo enorme. Pequeno, só eu.








Em Salamanca, Espanha/nov.2010 - turista.

domingo, 14 de novembro de 2010

do ser erasmus .

Antes de a experiência de intercâmbio me parecer factível – quando não passava de uma idéia ao mesmo tempo insistente e remota; perturbadora, impondo-se e sobrepondo-se a planos iminentes –, dediquei tempo considerável informando-me a respeito de universidades, sistema de ensino e custo de vida em países europeus. Foi quando li a respeito do Erasmus Mundus. E mesmo tendo navegado por quase todas as esferas do site do programa, penso ter sido por acaso, em uma entrevista publicada no El País [disponível para leitura aqui], que encontrei a mais interessante perspectiva a tal respeito.

Jorge Semprum, escritor que “tiene en la raíz de su biografía, que es la de su literatura, la idea de Europa como una herida y como una esperanza”, ao ser entrevistado pelo jornal espanhol, desenvolveu a temática, relacionando-a a estudantes intercambistas europeus. A entrevista, de título “Europa no es una unión altruísta”, não me saiu da cabeça e, neste meu tempo pseudo-erásmico, mostrou-se bastante coerente. Afirmou o escritor:

SEMPRUM (…) Esa pregunta, ¿para qué sirve Europa?, se puede contestar de una forma teórica y de una forma pragmática. Voy a empezar por la pragmática.
EL PAÍS Adelante.
SEMPRUM Preguntemos a estudiantes con experiencias Erasmus; con los mismos diez euros que gastan al día pueden viajar por toda Europa. Ya no necesitan un visado para viajar. Para ellos Europa es una cosa práctica, es un espacio de libertad y de movimientos. Ahora a esos jóvenes les piden que voten por Europa, y a lo mejor votan en contra porque se hacen una idea falsa o tergiversada. Pero ellos practican Europa. Lo mismo podemos decir de gente de negocios que tiene ahora muchos menos obstáculos para moverse... La Europa como espacio público, como dice Felipe González, de compartir ideas, proyectos, bienes culturales y espirituales, existe. Para eso sirve Europa.

Erasmo de Roterdã (Desiderius Erasmus Roterodamus), humanista renascentista neerlandês, foi um importante pensador e teólogo. Em detrimento dos muitos postos de prestígio que lhe foram oferecidos ao longo de sua vida, desenvolveu uma trajetória acadêmica marcada pela independência; pela liberdade. Sem fixar raízes em uma região específica, esteve nos mais importantes centros europeus de sua época – conheceu outros pensadores, acumulou diferentes conhecimentos; influenciou muitos, e deixou-se influenciar.

O European Region Action Scheme for the Mobility of University Students, E.R.A.S.M.U.S. é o programa europeu de mobilidade no ensino superior. Fazendo da homonímia ícone, o Erasmus busca fomentar o intercâmbio de experiências acadêmicas, incentivando e possibilitando diálogos e trocas entre indivíduos e instituições de diferentes países. Oficialmente, o programa é voltado para a União Européia e para alguns parceiros eventuais. Na prática, acolhe (ainda que não financeiramente) todos os intercambistas que chegam ao continente.

Sou, portanto - também eu! -, um erasmus. E como tal, mesmo sem sair de Lisboa, conheço já um tanto da Europa. Contornando a não-receptividade característica dos lisboetas, os erasmus interagem entre si. O amigo de um amigo convida uns e outros para uma social. Comparecem todos. Invariavelmente, há vários países representados – e diversos idiomas misturam-se, nas conversas. Inicia-se com o inglês, passa-se com facilidade para o espanhol. Depois para o português, que é cada vez mais freqüente, já que o idioma é ensinado nas universidades. Então, italianos pensam que se pode compreender o italiano – e se seguem poloneses, alemães, franceses.

Na semana passada, fui à casa de um italiano, onde uma brasileira fez uma feijoada. Depois, saímos todos – brasileiros, italianos, espanhóis, alemães... fomos dar uma volta. Na semana que vem, eu e uns amigos iremos, com uma alemã, à Espanha. Ficaremos na casa de uma brasileira, que divide apartamento com polonesas. Toda essa convivência já me parece habitual. Para mim, ser erasmus é bem isso; é viver a utopia da Europa como “una cosa práctica (…) un espacio de libertad y de movimientos (…) como espacio público (…) de compartir ideas, proyectos, bienes culturales y espirituales”.

O “Erasmus Mundus” é tema fácil nos periódicos europeus. Para simples referência, uma pesquisa no site do El País abrangendo o último ano, indica um total de 118 matérias em que o ocorreu o tópico. São textos que revelam, para além da recorrência e da familiaridade com o programa, seu potencial – e as esperanças que ele carrega, em termos de concretização da União Européia enquanto espaço de uma inventada cidadania comum. Seguem, como exemplo, uma série de trechos selecionados. O primeiro, como não poderia deixar de ser, diz respeito à Lisboa que tanto me encanta.

A pesar de la decadencia de la Lisboa antigua y señorial, la belleza de la ciudad, con sus siete colinas y el río Tajo omnipresente, sigue siendo un poderoso imán para el visitante extranjero. Consciente de ello, el Ayuntamiento ha encontrado un instrumento para recuperar la vitalidad de la ciudad: el programa Erasmus, que facilita la movilidad académica de los estudiantes dentro de la Unión Europea. 'Nuestro objetivo es transformar Lisboa en una ciudad Erasmus', asegura Manuel Salgado. Según los indicadores municipales, los 3.000 estudiantes extranjeros que llegan por año están contribuyendo a dinamizar el mercado de vivienda de alquiler.” [RELEA, Francesc. REPORTAJE: una gran ciudad europea en declive Lisboa, la capital del vacío. 01/08/2010 disponível para leitura aqui]

“En los últimos años ha crecido una corriente de fondo formada por jóvenes independentistas desacomplejados para los que su referente no es la meseta, sino cualquier capital europea con la ayuda del Erasmus y el low-cost. Las manifestaciones crean un efecto euforizante, la pertenencia a un colectivo protege en momentos de zozobra” [VERA, Esther. El Sinvivir 15/07/2010 disponível para leitura aqui]

Debería ser obligatorio que nuestros políticos realizaran una estancia Erasmus antes de presentarse a unas elecciones. Con esta obligación ganaríamos todos. Durante ese año como políticos-Erasmus podrían comprobar cómo se ejerce la política nacional, regional y local en países europeos que nos llevan mucha ventaja en muchos ámbitos. Les serviría para intercambiar experiencias y opiniones no sólo con políticos extranjeros sino también con ciudadanos europeos.” [HERNÁNDEZ, Javier. Políticos-Erasmus. 28/04/2010 disponível para leitura aqui]

Aunque resulte paradójico, a ojos de la comisaria Reding, el futuro de la Unión Europea lo garantiza la 'generación perdida' a la que pertenezco. Somos nosotros los que estamos conociendo otros países europeos gracias a las becas Erasmus, los fines de semana low cost... y quizás los primeros europeos con amigos en varios países de la Unión Europea. Los jóvenes de esta generación somos precisamente los primeros ciudadanos de la Unión que nos sentimos parte de ella y la mayor garantía para su futuro.” [MORENO, Carlos Serrano. El Futuro de la Unión Europea. 01/10/2010 disponível para leitura aqui]

Amanhã, irei ao Serviço de Estrangeiros e de Fronteiras. O local ideal para se constatar como, aos olhos de portugueses armados com uma burocracia intimidadora, um estudadante brasileiro deve ser tratado. Contrastes em expressa evidência. A provável utopia de meu cotidiano erasmus é, sem dúvida, a melhor forma de aproveitar o status privilegiado de estrangeiro - essa condição de viajante em terra distante, que, sem se fechar em uma determiada forma local de vivência, pode conhecer o mundo. Pouco me importa, apesar das chateações certas, saber que há quem pense o contrário. Afinal, o tempo passa depressa; é preciso saber aproveitá-lo.

sábado, 30 de outubro de 2010

reader's digest .
António Zambujo

Quero a vida pacata que acata o destino sem desatino
Sem birra nem mossa, que só coça quando lhe dá comichão
À frente uma estrada, não muito encurvada, atrás a carroça
Grande e grossa que eu possa arrastar sem fazer pó no chão
E já agora a gravata, com o nó que me ata bem o pescoço
Para que o alvoroço, o tremoço e o almoço demorem a entrar
Quero ter um sofá e no peito um crachá, quero ser funcionário
Com cargo honorário e carga de horário e um ponto a picar

Vou dizer que sim, ser assim assim, assinar a reader's digest
Haja este sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
Abrandando a dança, descansado até ao fim

Quero ter um t1, ter um cão e um gato e um fato escuro
Barbear o rosto, pagar o imposto, disposto a tanto
Quem sabe amiúde brindar à saúde com um copo de vinho,
Saudar o vizinho, acender uma vela ao santo
Quero vida pacata, pataca, gravata, sapato barato
Basta na boca uma sopa com pão, com cupão de desconto
Emprego, sossego, renego o chamego e faço de conta
Fato janota,
quota na conta e a nota de conto

Vou dizer que sim, ser assim assim, assinar a reader's digest
Haja este sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
Abrandando a dança, descansado até ao fim



...
Me lembro de, há não muito tempo, dizer a minha mãe que odiava a Reader's Digest. Continuo a pensar assim. Talvez também por isso goste tanto da música.