de pestanejos
Gosto de escrever. Não sei se isso basta como pré-requisito para manter um blog, mas por que não tentar? Decidi aventurar-me: enquanto segue a vida, transcrevo pestanejos.
domingo, 20 de maio de 2012
sábado, 5 de maio de 2012
Enquanto tomava um cappuccino e, em papeares ininterruptos, subvertia o que, fosse mais responsável, teria sido uma inteira tarde de estudos, notei estar sendo atentamente analisado pela mesa ao lado. Fingi não perceber – interesse nenhum em interagir –, mas confesso não ter ficado surpreso quando uma das também papeantes senhoras deixou sua cadeira e se dirigiu a mim.
“Com licença; desculpa. Você é o Filipe?” – sorri [posso ser muito simpático, quando não há o que dizer], mas não bastou a negativa: a presuntiva interlocutora revelou-se logo insistente. “Você tem certeza de que não é o Filipe?” – aumentei o sorriso, e arregalei os olhos. “Ele não é a cara do Filipe, Fulana?” – olhares constrangidos entre as mesas. “O Filipe já é casado.” – ah, tá. “Ele é primo da namorada do meu filho.” – íntimo, pelo visto. “Eu gosto muito dele.” – é para me convencer a ser o Filipe? “Não vejo o Filipe há anos” – estava ficando difícil manter a pose [depois de alguns segundos exibindo os dentes, as bochechas começam a doer]. “Olha, quer dizer que você não é o Filipe? Não estou acreditando!” – quem já não acreditava era eu. “Você está me enganando. Ele está me enganando, não está?” – comecei a olhar para os lados, como que a pedir ajuda; em vão. “Claro que está me enganando: você é o Filipe.” – a cabeça balançava em ritmo já acelerado. “É sim. Não é?! Ah...” – justamente, minha senhora: ah... “Se for uma brincadeira sua, vou pedir para sua mãe puxar o seu pé, quando você estiver dormindo.” – enquanto pensava no descabimento da ameaça, confesso, me dei conta de que, se minha mãe estivesse ali, sem dúvida já teria aderido à encenação, me afirmando um dissimulado Filipe. Sim, dissimulado, porque ele deveria ser mesmo muito pouco confiável, para fazer respingarem em meu cappuccino conjecturas assim tão presunçosas. Ou então... sim: a desconfiança poderia mais seguramente ser decorrente dessa senhora. Quem sabe não seria do estereotipado modelo de “dona” que os jovens evitam; de quem, logo avistando, passam longe? Bem possível – diria mesmo provável. Eu, pelo menos, se pudesse, passaria, naquele exato momento, para a outra extremidade do salão; sentaria à mesa mais distante do [impositivo] monologar interrogativo. “Gente! Que coisa... A ca-ra do Filipe!” – aham, senhora; senta lá! “Tô assustada.” – estávamos todos, àquela altura. “Que coisa.” – e ela enfim sentou.
Fiquei no café por ainda mais algum tempo. Pude ver a mesma senhora fazer voltar à cozinha o pedido de sua mesa, justificando-se à gerente: “olha, há algo de muito errado, em dizer que isso é um cappuccino. Somos [apontando para sua amiga, a Sra. Fulana] ambas viciadas em cappuccino.” – à gerente, resignada, só foi possível acatar a reclamação. “Estou acostumada a tomar cappuccino, entende? Sei quando está certo.” – mais certezas. “Falta o cremoso; é isso.” – o cremoso.
Da próxima vez, está já decidido, pedirei um expresso. Nada de cremoso em meu café – certeza.
sábado, 28 de abril de 2012
...
[Adendo do dia 10/05/2012:] Para entender a dimensão do debate - e de seus negacionismos -, bem vale a leitura deste artigo.
sábado, 21 de abril de 2012
Augusto Blanca
Quien se ponga a observar
En su lento caminar
A un caracol,
Podrá entonces descubrir
Que una estela luminosa
Va dejando tras su paso,
Para luego regresar
Por ese mismo lugar,
Para luego regresar.
El caracol no le teme
A la región que atraviese,
Ya que sabe que al final
Una meta encontrará;
Sólo le importa llegar,
Sólo le importa llegar,
Sólo le importa llegar.
Y quien se atreva
A interrumpir su paso,
Nada de él conseguirá,
Porque siempre el caracol
En estos casos
Se introduce en su coraza.
Y cuando el intruso cesa,
Vuelve a salir de su casa
Para entonces continuar;
Sólo le importa llegar.
Quien se ponga a caminar
A lo largo de un palmar,
Podrá ver en una de ellas
Que se mece un caracol
Como el gran conquistador,
Osado, en el penacho más alto,
Glorioso, victorioso.
Pero corta será su alegría,
Pero inútil será su camino,
Pero poco será su reinado,
Porque el viento le amenaza.
Y quien no sabe que al caer
De su trono el caracol,
Muere para abandonar su carroza
Debajo de cualquier hoja
Caída de cualquier árbol
En un otoño cualquiera.
Sólo le importó llegar
Y no supo regresar.
Sólo le importó llegar
Al caracol.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
domingo, 25 de março de 2012
sábado, 24 de março de 2012
Panqueca. Foi o nome que dei a minha cabra. Ela era velha, gorda e tinha uma barbicha proeminente. Gabriel, meu irmão caçula, quando ainda era miúdo – e, confesso, muito chato –, passou por uma fase de intolerância a leite bovino. Resultado: sofremos todos, lá em casa, restrições alimentares. Para consolidar a mudança no cardápio diário, meu pai apareceu, certa tarde, com a mala do carro cheia: três cabras e um bode – um para cada filho.
Odeio leite caprino – e absolutamente todos os seus derivados. Na verdade, nenhum de nós jamais gostou da impositiva alteração à mesa. No entanto, diferentemente de meus irmãos, pouco afeitos aos seres que no fim das contas nos traziam momentâneo desgosto, passei considerável tempo cuidando dos bichos. Acordava, todos os dias, bem cedo; vestia-me como convinha – roupas velhas, botinas gastas; subia as escadas, com meu pai.
Como seria de se esperar, era o responsável pelas mais simples das tarefas. Quando nasceram os primeiros cabritos, a mim coube alimentá-los, com mamadeiras – poderia ser diferente? Havia outros afazeres: cuidava também dos pintinhos – mantendo-os aquecidos sob uma luz forte, ensinando-os, com o dedo, a ciscar... – e tirava, da vaca, leite espumantemente suficiente para fazer transbordar minha caneca, previamente munida de chocolate em pó. Durante essa fase, de uma particular maneira, fui mesmo um fazendeiro. Pelo menos era como, orgulhoso, eu me sentia – especialmente nos dias em que havia visitas.
Justamente nesse espírito, decidi, num domingo de churrasco, “cavalgar” um bode. Meu pai havia comprado uma charrete que nunca chegou a funcionar e, impacientemente resoluto, adiantei-me a improvisar um passeio às costas do animal. Depois de correr um bom tempo atrás do Don Juan – um bode grande, com enormes chifres retorcidos –, consegui, bastante desajeitadamente, montá-lo, em um pulo apressado. Foi, contudo, uma viagem rápida: após uns tantos saltos e sacolejos, fui imprensado contra uma cerca: caí, é claro, e levantei-me com todo brio imaginável – braço esquerdo cortado, já que a cerca, obviamente, era de arame farpado.
Tenho ainda a cicatriz. Junto com lembranças, de modo geral aprazíveis, é dos poucos traços que me restam dessa fase. Por mais que lá em casa ainda conservemos Anabela, a mais singelamente dengosa das vacas – com cujo leite minha mãe faz pães de queijo para o ano inteiro –, estou longe; mesmo muito distante de apreciar o quotidiano, romanceado ou não, no campo: desgosto do trabalho característico; não suporto acordar cedo; tolero por muito pouco tempo o odor acentuado dos bichos.
Há alguns anos, meu irmão mais velho foi a Jaurú, uma cidadezinha no interior do Mato Grosso, onde moram nossos avós, alguns tios e primos. Um dos meninos mais novos, conversando, perguntou, ao primo que acabava de conhecer, “Você pesca? Laça boi? Monta cavalo?”, diante do suceder de negativas, ele, surpreso, protestou “Mas o que você faz, então?!”. Exagero infantil; reduzido campo de possibilidades. Para sorte de meu irmão e de todos lá em casa, sempre foi-nos possível, a despeito de umas não tantas tarefas impositivas, escolher a partir de uma considerável variedade de atividades. Tendo podido optar, acumulei iniciativas: tentei, desisti ou insisti; troquei de hábitos um sem número de vezes, considerando, ainda que inconscientemente, transformações e incompatibilidades.
Poder mudar e aceitar mudanças é verdadeiro incentivo ao agradável coligir de lembranças e à posterior conciliação de momentos díspares. Se deixar de lado o ainda voluntário cuidado com os bichos não tivesse sido uma possibilidade; se tivesse sido obrigado à manutenção dessas tarefas quando já não tinha por elas interesse algum, dificilmente teria guardado na memória, com carinho, a imagem da Panqueca – sua barbicha, sua pança; também dificilmente teria essa espécie de orgulho infantil, que me faz sempre abrir um sorriso, de minha discreta cicatriz no braço esquerdo.
quarta-feira, 21 de março de 2012
Vieillard, un enclos de béton vieux
Quel chagrin, quel triste monde
Dans ce minable safari domestique
Crinière en calvitie, derrière son grillage
Sous la volière des rapaces résignés
Un couple d’éléphants piétine d’ennui
Est-ce que chez eux, les enfants d’Afrique
des chats, des pigeons, des horodateurs ou des chiens
Le zoo de Vincennes, sinistre fête foraine
[Para ouvir a música, clique aqui ]
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sábado, 31 de dezembro de 2011
Fernando Pessoa
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anônimo e frio,
A vida vivida em vão.
A 'sp'rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobe mais que minha 's'prança,
Rola mais que o meu desejo.
Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam - verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.
Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.
Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!
Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Som morto das águas mansas
sábado, 19 de novembro de 2011
domingo, 6 de novembro de 2011
Meu impulso, bem confesso, pendia para dois, no máximo três parágrafos amargurados, com epicentro em uma chateação do dia dezessete. Tudo tão tedioso, que me cansei antes mesmo de começar – que cara mais chato! Então, em suspenso, pensei: por que não me imaginar já em dezembro? O blog é meu, posso tudo o que me permitir. Et... voilà. É um tremendo peso que me cai dos ombros. Dezembro é um mês atípico. Um calor de matar, resmungam transeuntes, e no bem gelado dos shoppings, os jingles insistem em inventar um já-natal enevoado. Pode ser, sim, selvagem recurso publicitário das variadas magazines – e o que não é, quando se têm [chateação das chateações] abertos os olhos à crítica anti-capitalista? Mas eu no fundo gosto. Tenho uma simpatia condescendente com a combinação um tanto grotesca de tradições reinventadas e exageros pendentes ao ridículo – desde que limitados, é importante ressalvar, ao período do bunda-lelê acadêmico; aos dias de bem-bom, que literalmente correm entre dezembro e fevereiro. Isso tudo me diverte; fico num quase suspenso – e não deveria ser para menos! No todo-restante dia-a-dia letivo, contudo, transbordo seriedade [para compensar?]. Pelo menos é o que digo. Se verdade ou não, com dezembro já a toda, só mesmo março para sanar eventuais desconfianças – sendo fortes as suspeitas, há que esperar, ver, ou não ver; sem outro remédio. Por ora, no oba-oba justificado, nada ou pouco importa: somos todos gatos e pardos. E é assim, e assim. Tudo da maior importância! Findo o parágrafo-abstração, é parar e pensar: Natal, Ano Novo, Carnaval – hum... tá quase.
sábado, 22 de outubro de 2011
Esta expressão sisuda e seca que passeio pelas ruas engana toda a gente. No fundo, sou um bom sujeito, com uma só confessada fraqueza de má vizinhança: a ironia. Ainda assim, procuro trocar-lhe as voltas e trato de trazê-la à trela (as aliterações dos nossos trisavós estão outra vez na moda) para que a vida não se me torne em demasia desconfortável. Mas devo confessar que ela me vale como receita de bom médico sempre que a outra porta de saída teria de ser a indignação. Às vezes o impudor é tanto, tão maltratada a verdade, tão ridicularizada a justiça, que se não troço, estoiro de justíssimo furor.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Um semestre. Não foi preciso tanto tempo, para me convencerem. Gestos simples, como o de um calouro de nariz vermelho, puxando papo furado no primeiro dia – quando eu já me livrara de minha parcela de guache e voltava, cabisbaixo, para casa. Ou a tolerância de um grupo insistente, em conversas infinitas – em intervalos, aulas vagas e reuniões de trabalho. Eu podia ser chato. Podia discordar e discutir. Me convenceram a ficar.
A ficar e a tomar gosto pela coisa. As aulas se multiplicaram – e se multiplicaram os interesses; os grupos. Mais gente, outros assuntos, novos amigos. Continuaram as conversas. E as discordantes concordatas. Com acentuadas diferenças, entendemos.
Eu acho que entendi. Aprendi a fazer mais perguntas, e a esperar menos das respostas; a insistir em algumas idéias, e a desistir de muitas outras; a tomar partido, e a me deixar influenciar.
Influências.
2011. Todas essas pessoas... E eu. Não parecia adequado. Não imagino diferente.
...
Certas Coisas
Lulu Santos/Nelso Motta
Não existiria som
Se não houvesse o silêncio
Não haveria luz
Se não fosse a escuridão
A vida é mesmo assim,
Dia e noite, não e sim...
Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...
Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e som,
Tem certas coisas que eu não sei dizer...
domingo, 5 de junho de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Posso me gabar de, no que diz respeito a Canterano, saber bem mais que a Wikipedia. E de ter fotos - inexistentes no verbete acima [integralmente] reproduzido. Tudo isso e mais lembranças de um agradável jantar inusitado.
Passava das 18h, quando, com meu novo amigo, Michael R. – que encontrei pela primeira [e única] vez algumas horas mais cedo –, entrei num ônibus de cujo destino final confesso nunca ter tomado nota. Estava por demais preocupado: havia me sentado sem pagar pela passagem. Apenas mais um de meus [recorrentes, e sempre contornáveis] percalços de comunicação, acentuado pela pressa. Para conseguir chegar a Canterano e voltar no último ônibus para Roma, precisava agir com celeridade. Diante do potencial embaraço, ficou acordado: caso me fosse exigido um bilhete, agiria como um turista desavisado, mostrando meu Roma Pass [cuja área de abrangência limitava-se à região metropolitana] e demonstrando total desconhecimento do italiano. Michael, para evitar constrangimentos, daria a cobertura necessária, se preciso fosse – um bom amigo, posso, desde já, afirmar.
Já havia escurecido, quando deixamos o terminal rodoviário. E após cerca de uma hora de conversa jogada fora, saltamos. Michael tinha um carro estacionado a sua espera, à beira da estrada – dirigindo o veículo, emprestado por seu tio, ele chega diariamente à estrada onde passa o ônibus para a capital. De carro, estendeu-se por mais alguns minutos o caminho. Subindo; sempre subindo. Pelas janelas, já não era possível avistar paisagem alguma. Impossível entender direito onde estava – já havia perdido qualquer noção de direção. Quando enfim alcançamos o topo do monte, fui informado de que havíamos chegado.
Canterano me pareceu incrivelmente simpática. Uma velha igreja, duas praças, duas mercearias. Na casa de Michael, não podia ter sido mais bem recebido. Junto com sua família, um saboroso italiano jantar me aguardava. Apesar de minha incapacidade de comunicação no idioma, foi possível compreender muitas coisas. Ou pelo menos o suficiente: entendi que era muito bem-vindo.
Após um passeio pelas praças, um picolé [delicioso, apesar do frio cortante – era inverno e estávamos no topo do monte] e um tradicional rocambole de chocolate, prometi à mãe de meu amigo, numa grosseira tentativa de expressão em italiano, que, quando voltasse à Itália, passaria “almeno tre giorni” em sua casa. Então refiz o caminho, em sentido inverso: desci de carro, peguei o ônibus, entrei no metrô, andei mais uns minutos a pé e, um pouco sem acreditar, cheguei ao hostel e dormi, satisfeito com um memorável dia – longe de casa e de qualquer referência ao conhecido.
Alguns meses antes, havia recebido um e-mail de Richard, um irlandês que passaria seis meses em Lisboa para aprender o português. Ele havia encontrado meu endereço no site dos Erasmus e me escreveu, para saber se eu toparia encontrá-lo para praticarmos inglês e português. Depois de uns tantos cafés, muitas conversas e algumas viagens pela região, me despedi dele mais confiante de que valia a pena arriscar fazer amigos por meios diferentes dos que me eram habituais. E então, planejando meu modesto tour de fim de viagem, acessei o site da Carta Giovani e escrevi para uns poucos endereços selecionados. Michael foi o único a me responder. Coincidentemente, ele disse estudar “português brasileiro” na Università degli Studi di Roma "La Sapienza" e, após uns tantos e-mails [em inglês, novamente], dispôs-se a ser meu guia em Roma. Por desencontros nos calendários, só pudemos nos encontrar uma vez. Foi, sem dúvida, o melhor dos sete dias que passei na Itália. Conheci, além de pontos turísticos tradicionais em Roma, lugares conhecidos apenas por locais [como a simpática loja onde se pode comprar o melhor tiramissú da Itália]. E foi assim, de surpresa, que recebi, no meio da tarde, um convite para ir à casa de meu novo amigo, numa cidadezinha não muito distante.
Diz-se que quem tem boca vai a Roma. Pois de Roma a Canterano, quem tem boca conta uma história.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Nos últimos dias, têm sido freqüentes imagens e manchetes sobre a região serrana do Rio de Janeiro. A primeira vez que vejo minha cidade, Teresópolis, em um periódico internacional* associa-se tragicamente a um desastre de dimensão imensa. Com mais de 600 mortos e de 10 mil pessoas desalojadas, a região sofre; padece os efeitos acumulados de intempéries, da falta de planejamento, investimento, controle... de imprevistos e irresponsabilidades mil. Sente as dores de destruição, de danos, de perdas. Impossível não me sentir afetado pela tristeza real das pessoas que figuram em números, relatos e fotografias; não me sentir incomodamente inquieto diante de tamanho caos. De longe – e perto –, faltam-me palavras. Lastimar não basta, mas não se podem evitar lamentos. Em privado, marejam-me os olhos.
da dor do não mais ter[ou empatia II]Perder, quando muito se estima, é – como vozes outras já têm dito – ver-se sem um pedaço do que se julga ser; tão íntimo, que parece ligado à essência, essa abstração que se concretiza, em dores, espasmos, choro. Lamentar parece pouco. Re-ter, impossível. Mas deixar? Não parece certo; não parece justo: não. Um impasse. Lembranças, pendências, saudade. Tudo, ao mesmo tempo, revela-se – às claras. Juntando-se; conformando-se à dor. Angústia. Gritar, correr, fugir, voltar? Não volta. É passado, quando ainda está presente. É um desde já memória; inconformada fonte para, depois, elaborar-se história. Sacralizam-se migalhas do que já se foi. Reajustam-se e ressignificam-se trechos de um cotidiano distanciado pela força da ausência; imposição do imediato. Invertem-se conceitos, revogam-se prioridades. Trocam-se pés por mãos, dificultando a sensação de um mundo já de ponta cabeça. É, ao mesmo tempo, dar-se conta e rejeitar. É percepção da negação do desapego. A dor do ainda, contudo, guardar.
>>> Para saber como ajudar os vitimados, clique aqui.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
“É melhor aproveitar, porque vem aí um ano para lembrar. Ou esquecer... Uma pessoa nem sabe por onde começar. Talvez pela economia: vêm aí os cortes de salários e as subidas de impostos, e a recessão. O país vai continuar em dificuldades para pagar a dívida externa e apresenta-se em todo o seu esplendor a ameaça de saída do euro. O que nos conduz à nossa Europa e à sua manifesta incapacidade para lidar com isso que nos está a acontecer (a nós e, vendo bem, aos outros todos). A Europa, que tem sido o nosso farol de progresso, ameaça apagar-se numa algaraviada deprimente. (...) Como retoque final, aproxima-se também a hipótese de disfuncionalidade política (...). Em 2011, a ameaça é de colapso econômico, europeu e político, e todos estão ligados entre si. Para que a catástrofe não seja total, resta esperar que consigamos distinguir o essencial do acessório. Como num incêndio: só salvamos aquilo sem o qual não podemos viver. E para o salvarmos, é melhor deixar arder o resto”. [Um ano para lembrar. Metro, 16/12/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
“Num regime cuja única memória histórica é negativa (...) a República serviria de fundação histórica à democracia. Tratava-se de encontrar para Portugal o equivalente das celebrações da revolução francesa ou da revolução americana. Mas tudo correu mal. Com o regime a atravessar a sua pior crise desde a instauração, aquilo que deveria ter sido a grande festa de uma democracia consolidada colidiu com a realidade de uma democracia cheia de dúvidas sobre a sua viabilidade. Num certo sentido, ainda bem. Seria um erro fundar a corrente democracia num regime que de democrático apenas teve o nome que atribuiu a si próprio (...). Se a democracia quer encontrar uma fundação histórica ao estilo do 14 de julho ou do 4 de julho deveria ver a monarquia constitucional como momento-chave (...). Deste modo, o centenário lá passou perante a indiferença geral. Ao menos assim não se juntou um grande erro simbólico ao que hoje já está errado em Portugal”. [Repúblicas. Metro, 14/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
“‘Integração de imigrantes, ou estamos a pagar para sermos invadidos?! Fundos comunitários? (...) eis a bela vergonha que este País se tornou, pagamos para ser colonizados por milhares de extra-europeus que vão destruir a nossa identidade (...). Vivem à conta do estado social, aumentam a criminalidade violenta (...) corroem a nação portuguesa (...)’. Um leitor do Publico online ‘respondia’ exaltado a um artigo daquele diário sobre as virtudes do Centro Nacional de Apoio ao Imigrante (CNAI) (...). Aquele leitor pode não ser uma amostra nacional de um pensamento perigoso sobre imigração. Mas também pode ser, não sabemos. Alguém já fez um inquérito? (...) Nações que acolhem imigrantes, como Portugal, têm ainda muito a fazer, apesar do garboso trabalho do CNAI e demais entidades (e dos milhões indisciplinadamente colocados na ‘integração’). Porque, na verdade, todas estão a falhar. A não ser que os imigrantes não queiram ser ‘integrados’(...). Há, de facto, muito a fazer, mas dos dois lados da equação. Antes que seja tarde”. [“Integrados” contra vontade? Metro, 18/10/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
“Apesar de tudo o que nos está a acontecer ser de nossa responsabilidade (sem dúvida alguma: neste país o poder ainda vai sendo eleito, não imposto) já uma frase que a ‘crise’ trouxe à ribalta que me deixa incomodado: ‘não há alternativa’. Não há alternativa à União Europeia, ao Euro, à Comissão Europeia, ao Parlamento Europeu. Estar encurralado não é coisa que caia bem, suponho que a todos nós. Se bem percebo, o que essa larga maioria de políticos avisa é: ou ‘estamos’ na Europa ou... Ou o quê? Implodimos? Morreremos todos à fome? O dilúvio varre Portugal continental e ilhas adjacentes do Mundo? Tenho dúvidas (...). Há certamente alternativas, mas tem sido mais cômodo não pensar nelas e culpar ‘Bruxelas’ e o Mundo em geral pela situação triste em que nos obrigam a viver (...). gostamos de trabalhar e somos criativos, dez milhões de pessoas simpáticas que sabem conviver e se entendem com o Mundo tenha ele a cor que tiver. Deve haver alternativas à ‘Europa’ (....) O que é que um pais com 871 anos de História pode ensinar a uma instituição com apenas 18?” [Reflexão Natalicia. Metro, 20/12/10, p. 02. Disponível para leitura aqui]
...
* "Nem por isso" é uma expressão portuguesa negativa; equivale ao "not really", do inglês.
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
mais pas encore * . .
2011 anuncia-se impositivo. Se o ano passado marcou-se pela jornada do intercâmbio – de idealizações aos inevitáveis desenganos e surpresas –, o corrente, início de nova década, prenuncia encerramentos – do retorno a casa à conclusão da graduação. É preciso retomar os livros, as aulas, o rumo: escrever monografia, cursar últimas disciplinas do curso e encarar o processo seletivo do mestrado – elaborar projeto de pesquisa, estudar a não mais poder. Não exatamente metas; compromissos que se impõem, de antemão. Tenho saudade de casa – a família, os amigos, o [bem] estar entre brasileiros – e, para descanso de meus pais, admito já ser mesmo tempo de encerrar essa primeira fase na universidade. Nesses últimos meses que me restam, contudo, prolongo 2010, um ano que foi [tem sido?] ao mesmo tempo progresso e pausa; momento de tomar importantes decisões e de relaxar, sem um grande sentimento de culpa. E adiando compromissos e despedidas – mais uma vantagem de permanecer no velho mundo após o réveillon –, cruzo dedos para tudo que o 2011 pressagia. Quero, sim, um feliz ano novo, mas não antes da quarta-feira de cinzas. Até lá, deixa o barco correr... seja o que Deus quiser!
...
* é preciso acordar, mas não ainda.
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
No pouco tempo em que estive em Salamanca, fui a uma festa. Obviamente, também visitei locais turísticos e tirei fotos a não mais poder, mas essa atitude de admiração entusiasmada e constante é de se esperar de um turista típico; não causa surpresa. A festa, contudo, apesar de habitual em cidades universitárias com elevado teor de erasmus, surpreendeu um tanto. Foi na casa de brasileiros – amigos de amigos que fiz em Lisboa. Assim que lá cheguei, um dos anfitriões veio falar comigo: “oi, você é de Terê? Estudou no GM? É irmão da Mari?” Muitos apelidos e perguntas específicas e certeiras a meu respeito; levei um susto. Foi quando o questionador esclareceu: ele havia estudado com minha irmã no mesmo colégio que eu, em Teresópolis, e me reconheceu... em Salamanca – uma cidade miúda, a três horas de Madri.
Uma das primeiras resoluções que tomei, ao sair do Brasil, foi aposentar minha agenda. Estando acostumado a planejar, programar e listar compromissos e tarefas, decidi que experimentaria o que há de bom e de ruim em uma rotina menos sistemática. Se diferença é palavra-chave deste semestre longe de casa, por que não iniciar o período com uma mudança de atitude? Entrei no jogo e me permiti uma relativa liberdade cotidiana – que resultou em uma estranha sensação de desprendimento e em um ou outro compromisso esquecido. Tem sido interessante.
Devido, talvez, a essa confusão no calendário, no entanto, meus dias lisboetas foram afetados por férias que ainda não chegaram. Corre a última semana de aulas, apesar de o período letivo não se encerrar senão em meados de fevereiro – o mês de janeiro destina-se inteiramente a provas e trabalhos –, e só quero imaginar viagens. É fato que, por desinteresse justificável, não tenho me dedicado tanto às aulas na Universidade – e que os professores adiantarão os compromissos letivos para sermos todos liberados o mais cedo possível. Quando paro para pensar nos dias que me restam por aqui, contudo, sinto falta de uma agenda. Além dos tais trabalhos e provas, tenho uma pesquisa em andamento – como aspirante a historiador, as idas ao arquivo justificam e legitimam, por si, meu tempo em Portugal – e alguns destinos em suspenso.
Hoje à tarde, um professor, abordando a expansão do cristianismo, enumerou, ligeira e um tanto aleatoriamente, locais em que havia clérigos missionários no século XVII. Após breve reflexão sobre as diferenças entre povos e culturas, ele exclamou: “o mundo é muita grande; muita grande”. Assumo que demorei um tanto para entender a ocorrência do “muita” como advérbio no português europeu. De início, só o que eu notava eram a falta de sentido e a arbitrariedade. Foi a Cacau que explicou: utiliza-se tal forma para, por meio da diferenciação e do destaque, potencializar a idéia de “muito”. A expressão do professor, portanto, equivale informalmente a enorme. Apesar de o estranhamento permanecer, concordo com ele. Estando em Portugal; na pontinha da Europa, sinto-me bastante perto de muitos dos lugares que quero visitar. Abro o site da easyjet e invento uma série de roteiros lowcost. O orçamento, a prudência e os compromissos, contudo, impõem seus limites: é preciso planejar com cautela e eleger uns poucos destinos, em detrimento dos outros todos. Com tantas opções interessantes, é difícil fazer escolhas/concessões - a questão complica-se ainda mais, quando se tentam conciliar agendas e roteiros para, alhures, topar com amigos. Recobram-se, assim, as distâncias; as pujantes dimensões da realidade.
No dia seguinte à festa a que me referi no início do post, recebi uma mensagem de minha irmã – “sei de seu paradeiro em Salamanca; cuidado comigo” – e entrei em um ônibus, a suspirar coincidências. Fui-me embora para Madri, onde tirei fotos, visitei parques e museus, comi tortilla e encontrei um amigo. O mundo é mesmo enorme. Pequeno, só eu.
Em Salamanca, Espanha/nov.2010 - turista.
domingo, 14 de novembro de 2010
Antes de a experiência de intercâmbio me parecer factível – quando não passava de uma idéia ao mesmo tempo insistente e remota; perturbadora, impondo-se e sobrepondo-se a planos iminentes –, dediquei tempo considerável informando-me a respeito de universidades, sistema de ensino e custo de vida em países europeus. Foi quando li a respeito do Erasmus Mundus. E mesmo tendo navegado por quase todas as esferas do site do programa, penso ter sido por acaso, em uma entrevista publicada no El País [disponível para leitura aqui], que encontrei a mais interessante perspectiva a tal respeito.
Jorge Semprum, escritor que “tiene en la raíz de su biografía, que es la de su literatura, la idea de Europa como una herida y como una esperanza”, ao ser entrevistado pelo jornal espanhol, desenvolveu a temática, relacionando-a a estudantes intercambistas europeus. A entrevista, de título “Europa no es una unión altruísta”, não me saiu da cabeça e, neste meu tempo pseudo-erásmico, mostrou-se bastante coerente. Afirmou o escritor:
SEMPRUM (…) Esa pregunta, ¿para qué sirve Europa?, se puede contestar de una forma teórica y de una forma pragmática. Voy a empezar por la pragmática.
EL PAÍS Adelante.
SEMPRUM Preguntemos a estudiantes con experiencias Erasmus; con los mismos diez euros que gastan al día pueden viajar por toda Europa. Ya no necesitan un visado para viajar. Para ellos Europa es una cosa práctica, es un espacio de libertad y de movimientos. Ahora a esos jóvenes les piden que voten por Europa, y a lo mejor votan en contra porque se hacen una idea falsa o tergiversada. Pero ellos practican Europa. Lo mismo podemos decir de gente de negocios que tiene ahora muchos menos obstáculos para moverse... La Europa como espacio público, como dice Felipe González, de compartir ideas, proyectos, bienes culturales y espirituales, existe. Para eso sirve Europa.
Erasmo de Roterdã (Desiderius Erasmus Roterodamus), humanista renascentista neerlandês, foi um importante pensador e teólogo. Em detrimento dos muitos postos de prestígio que lhe foram oferecidos ao longo de sua vida, desenvolveu uma trajetória acadêmica marcada pela independência; pela liberdade. Sem fixar raízes em uma região específica, esteve nos mais importantes centros europeus de sua época – conheceu outros pensadores, acumulou diferentes conhecimentos; influenciou muitos, e deixou-se influenciar.
O European Region Action Scheme for the Mobility of University Students, E.R.A.S.M.U.S. é o programa europeu de mobilidade no ensino superior. Fazendo da homonímia ícone, o Erasmus busca fomentar o intercâmbio de experiências acadêmicas, incentivando e possibilitando diálogos e trocas entre indivíduos e instituições de diferentes países. Oficialmente, o programa é voltado para a União Européia e para alguns parceiros eventuais. Na prática, acolhe (ainda que não financeiramente) todos os intercambistas que chegam ao continente.
Sou, portanto - também eu! -, um erasmus. E como tal, mesmo sem sair de Lisboa, conheço já um tanto da Europa. Contornando a não-receptividade característica dos lisboetas, os erasmus interagem entre si. O amigo de um amigo convida uns e outros para uma social. Comparecem todos. Invariavelmente, há vários países representados – e diversos idiomas misturam-se, nas conversas. Inicia-se com o inglês, passa-se com facilidade para o espanhol. Depois para o português, que é cada vez mais freqüente, já que o idioma é ensinado nas universidades. Então, italianos pensam que se pode compreender o italiano – e se seguem poloneses, alemães, franceses.
Na semana passada, fui à casa de um italiano, onde uma brasileira fez uma feijoada. Depois, saímos todos – brasileiros, italianos, espanhóis, alemães... fomos dar uma volta. Na semana que vem, eu e uns amigos iremos, com uma alemã, à Espanha. Ficaremos na casa de uma brasileira, que divide apartamento com polonesas. Toda essa convivência já me parece habitual. Para mim, ser erasmus é bem isso; é viver a utopia da Europa como “una cosa práctica (…) un espacio de libertad y de movimientos (…) como espacio público (…) de compartir ideas, proyectos, bienes culturales y espirituales”.
O “Erasmus Mundus” é tema fácil nos periódicos europeus. Para simples referência, uma pesquisa no site do El País abrangendo o último ano, indica um total de 118 matérias em que o ocorreu o tópico. São textos que revelam, para além da recorrência e da familiaridade com o programa, seu potencial – e as esperanças que ele carrega, em termos de concretização da União Européia enquanto espaço de uma inventada cidadania comum. Seguem, como exemplo, uma série de trechos selecionados. O primeiro, como não poderia deixar de ser, diz respeito à Lisboa que tanto me encanta.
“A pesar de la decadencia de la Lisboa antigua y señorial, la belleza de la ciudad, con sus siete colinas y el río Tajo omnipresente, sigue siendo un poderoso imán para el visitante extranjero. Consciente de ello, el Ayuntamiento ha encontrado un instrumento para recuperar la vitalidad de la ciudad: el programa Erasmus, que facilita la movilidad académica de los estudiantes dentro de la Unión Europea. 'Nuestro objetivo es transformar Lisboa en una ciudad Erasmus', asegura Manuel Salgado. Según los indicadores municipales, los 3.000 estudiantes extranjeros que llegan por año están contribuyendo a dinamizar el mercado de vivienda de alquiler.” [RELEA, Francesc. REPORTAJE: una gran ciudad europea en declive Lisboa, la capital del vacío. 01/08/2010 disponível para leitura aqui]
“En los últimos años ha crecido una corriente de fondo formada por jóvenes independentistas desacomplejados para los que su referente no es la meseta, sino cualquier capital europea con la ayuda del Erasmus y el low-cost. Las manifestaciones crean un efecto euforizante, la pertenencia a un colectivo protege en momentos de zozobra” [VERA, Esther. El Sinvivir 15/07/2010 disponível para leitura aqui]
“Debería ser obligatorio que nuestros políticos realizaran una estancia Erasmus antes de presentarse a unas elecciones. Con esta obligación ganaríamos todos. Durante ese año como políticos-Erasmus podrían comprobar cómo se ejerce la política nacional, regional y local en países europeos que nos llevan mucha ventaja en muchos ámbitos. Les serviría para intercambiar experiencias y opiniones no sólo con políticos extranjeros sino también con ciudadanos europeos.” [HERNÁNDEZ, Javier. Políticos-Erasmus. 28/04/2010 disponível para leitura aqui]
“Aunque resulte paradójico, a ojos de la comisaria Reding, el futuro de la Unión Europea lo garantiza la 'generación perdida' a la que pertenezco. Somos nosotros los que estamos conociendo otros países europeos gracias a las becas Erasmus, los fines de semana low cost... y quizás los primeros europeos con amigos en varios países de la Unión Europea. Los jóvenes de esta generación somos precisamente los primeros ciudadanos de la Unión que nos sentimos parte de ella y la mayor garantía para su futuro.” [MORENO, Carlos Serrano. El Futuro de la Unión Europea. 01/10/2010 disponível para leitura aqui]
Amanhã, irei ao Serviço de Estrangeiros e de Fronteiras. O local ideal para se constatar como, aos olhos de portugueses armados com uma burocracia intimidadora, um estudadante brasileiro deve ser tratado. Contrastes em expressa evidência. A provável utopia de meu cotidiano erasmus é, sem dúvida, a melhor forma de aproveitar o status privilegiado de estrangeiro - essa condição de viajante em terra distante, que, sem se fechar em uma determiada forma local de vivência, pode conhecer o mundo. Pouco me importa, apesar das chateações certas, saber que há quem pense o contrário. Afinal, o tempo passa depressa; é preciso saber aproveitá-lo.
sábado, 30 de outubro de 2010
António Zambujo
Quero a vida pacata que acata o destino sem desatino
Sem birra nem mossa, que só coça quando lhe dá comichão
À frente uma estrada, não muito encurvada, atrás a carroça
Grande e grossa que eu possa arrastar sem fazer pó no chão
E já agora a gravata, com o nó que me ata bem o pescoço
Para que o alvoroço, o tremoço e o almoço demorem a entrar
Quero ter um sofá e no peito um crachá, quero ser funcionário
Com cargo honorário e carga de horário e um ponto a picar
Vou dizer que sim, ser assim assim, assinar a reader's digest
Haja este sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
Abrandando a dança, descansado até ao fim
Quero ter um t1, ter um cão e um gato e um fato escuro
Barbear o rosto, pagar o imposto, disposto a tanto
Quem sabe amiúde brindar à saúde com um copo de vinho,
Saudar o vizinho, acender uma vela ao santo
Quero vida pacata, pataca, gravata, sapato barato
Basta na boca uma sopa com pão, com cupão de desconto
Emprego, sossego, renego o chamego e faço de conta
Fato janota, quota na conta e a nota de conto
Vou dizer que sim, ser assim assim, assinar a reader's digest
Haja este sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel, filhos, fado, anel, e lua de mel em França
Abrandando a dança, descansado até ao fim
...
Me lembro de, há não muito tempo, dizer a minha mãe que odiava a Reader's Digest. Continuo a pensar assim. Talvez também por isso goste tanto da música.